domingo, 17 de julho de 2011

AS ORIGENS DO ORGULHO PARAENSE.

Caldeirão multiétnico influenciou o nosso jeito

 

Marcela Brabo: uma baiana no Pará (Foto: Elcimar Neves)


MATRIZES DO PARÁ

Um chiadinho inconfundível ao pronunciar o S, a paixão pelo carimbó, a mesa farta de referências indígenas como o tacacá.

Para quem nasceu ou vive no Pará, essas imagens são mais que corriqueiras. São verdadeiros clichês que definem um jeito de ser, típico de um povo que, mesmo nestes tempos globalizados, exibe tradições cada vez mais enraizadas.

Mas de onde vêm todos esses hábitos e costumes? Como eles se tornaram parte da identidade dos paraenses? O que nos define? Como nos tornamos o que somos?

O DIÁRIO foi em busca das origens da identidade do povo paraense. Encontrou uma certeza: somos resultado de um caldo cultural com ingredientes que ultrapassam fronteiras e as barreiras do tempo. O que hoje é o retrato do paraense é na verdade uma colagem com as contribuições de povos que já estavam aqui quando chegaram os primeiros portugueses - os índios - ou que para cá vieram após o descobrimento em busca de oportunidades, sonhos e de uma vida melhor, caso dos espanhóis, marroquinos, japoneses e outros.

EM FERVURA

Hoje, o caldeirão cultural ainda ferve. “O processo de formação de um povo não termina. É constante. Estamos sempre em formação”, ressalta o historiador e professor da Universidade Federal do Pará, Otaviano Vieira.

O Pará continua recebendo influências de outros países, mas as contribuições atuais vêm, principalmente, de migrantes de outros pontos do Brasil que chegam trazendo novos elementos ao jeito de ser dos paraenses.

Belém cosmopolita atraiu povos diversos

A história da ocupação do Pará se confunde em muitos pontos com a de todos os Estados brasileiros, mas com alguns toques que são bem característicos desta região.

No início eram os índios e sua vida simples vivendo da caça, pesca coleta de frutos. Depois chegaram os portugueses e seu espírito conquistador e, em seguida, o negro africano, um povo culturalmente rico, mas massacrado pelo sistema escravocrata da época.

Vieira explica que diferente do que muitos imaginam, a presença do negro no Pará também foi forte. Mesmo não tendo as grandes fazendas destinadas à monocultura, aqui também os negros eram explorados como mão de obra escrava. “Eram escravos urbanos ou trabalhavam nos engenhos”, diz o historiador.

“Talvez não tenhamos recebido negros na mesma proporção da Bahia, por exemplo, mas certamente recebemos mais que muitos outros Estados como o Ceará”, diz Vieira, ressaltando que ao falar de negro refere-se a “homens e mulheres vindos de várias regiões da África”. “Não podemos falar do negro ou dos índios como uma coisa só. Havia muitas diferenças culturais entre os africanos, assim como há entre os europeus”.

Portugueses, negros e índios estão, portanto, presentes na base da formação do que viria a ser o povo paraense assim com ocorreu praticamente em toda a América.

A esses ingredientes básicos, porém, foram sendo acrescentados muitos outros. Os ingleses, por exemplo, chegaram em maior número no século XIX, com o apogeu do ciclo da borracha. Vieram comandar empresas como as companhias de energia e de água. Exploravam empreendimentos importantes como o porto de Belém. Com eles vieram os imigrantes de Barbados que formavam a força de trabalho das firmas inglesas.

No mesmo período chegaram os espanhóis. Um levantamento feito pelo Centro de Memória da Amazônia (CMA), ligado à UFPA, mostra que em 1896 chegaram ao Pará cerca de 3 mil imigrantes espanhóis. Quase 2 mil foram para o interior e 1.368 ficaram em Belém. Segundo o CMA, “grande parte dos espanhóis seguiu para os núcleos coloniais de Monte Alegre e Bragança, e outros se empregaram em estabelecimentos industriais da capital e do interior ou como criados em casas de famílias”.

O historiador e pesquisador da Universidade Federal do Pará, Aldrin Figueiredo, conta que os estudos mostram que no final do século XIX era comum encontrar, na capital paraense, belgas que vinham trabalhar como modistas e japoneses que começaram a chegar aos poucos antes do grande fluxo migratório iniciado em 1928 e que culminou com o período entre as duas grandes guerras na primeira metade do século XX. “Belém era uma cidade cosmopolita”, define.

Entre os europeus, porém, os portugueses sempre foram maioria por estas bandas. Dados do censo de 1872, disponibilizados pelo CMA, revelam que naquele ano, 79% dos estrangeiros residentes em Belém eram portugueses.

“Entre esses imigrantes a presença masculina era majoritária e suas principais atividades eram a de proprietários, comerciantes, empregados no comércio, marítimos e trabalhadores agrícolas. Outras profissões apareceram em menor escala, como as de: serralheiro, jornaleiro, padeiro, sapateiro, carpinteiro, criado de servir, alfaiate, pescador e vendedor ambulante”, descreve um estudo do CMA.

O pesquisador diz que era forte também a presença de judeus marroquinos, italianos e alemães. “Sobrenomes como Keuffer são marcas da presença alemã aqui”, ressalta Aldrin Figueiredo.

Uma rica identidade, que se põe à mesa

Olhar o passado é um exercício importante se quisermos entender o que somos no presente. Por isso um caminho inevitável para quem deseja desvendar a identidade paraense é a história.

Para começar, o Pará demorou a cortar os laços com Portugal. Só um ano depois do grito de Dom Pedro I às margens do Ipiranga, os paraenses aderiram à independência do Brasil. “Até agosto de 1823, o Pará junto ao Maranhão ainda era administrado por Portugal. Portanto, não era Brasil. Isso quer dizer que éramos uma unidade à parte”, diz o antropólogo e pesquisador da UFPA, Romero Ximenes, afirmando que talvez por essa razão o Estado tenha uma das capitais mais lusitanas do Brasil.

Consolidada a condição de fazer parte do Estado brasileiro, o Pará foi adquirindo as características que o fez ser o que é nos dias de hoje.

Instado a dizer qual o traço mais marcante do paraense, o antropólogo não titubeia: “A identidade paraense é definida pela comida. Isso está presente na fala: somos a terra do papa-chibé, terra do açaí, terra do pato no tucupi. Em todos os casos é terra de gente definida por alguma coisa que come. São Paulo, por exemplo, é terra da garoa. Não é a terra da pizza. Quando o paraense fala de si mesmo, fala de comida”.

IDENTIDADES

Romero Ximenes explica que cada povo constrói sua identidade a partir de elementos como a história, a formação étnica, e até a culinária que, segundo ele, seria o nosso caso. “Como o paraense adota um estrangeiro? Pergunta logo se já provou açaí ou tacacá. Se provou e gostou então já é paraense”. Aderir ao padrão alimentar regional é, portanto, um dos primeiros passos para quem deseja fazer parte dessa mistura chamada povo paraense.

“A nossa culinária é coisa da qual nos orgulhamos mais”, explica Ximenes. Olhando para um cardápio tipicamente paraense, é possível deduzir que um dos elementos mais fortes da nossa identidade é preponderantemente indígena. “Embora a gente não se identifique como índio. A identidade paraense não se constrói pela raça, pelas etnias”, ressalta o antropólogo.

Isso ocorre, segundo o pesquisador, em todo o Estado e não apenas no entorno da capital, apesar das diferenças das correntes migratórias que povoam as regiões do Pará. “O sul e sudeste do Estado é uma região que se reconfigurou completamente. Ganhou novos elementos. O baixo Amazonas é a região mais tradicionalmente paraense do Pará”, diz citando as duas regiões que, ainda este ano, serão alvos do plebiscito que poderá levar à divisão do Estado.

No fundo, diz o pesquisador, há mais semelhanças entre os paraenses de norte a sul do que se costuma imaginar e sempre ela, a culinária, é um elemento importante de integração.

“No entorno de Belém e no Marajó o elemento forte é o açaí, em outras regiões são outros pratos, mas sempre há uma identidade paraense girando em torno da culinária e hábitos alimentares. Isso influencia até o nosso jeito de ser. Um modo de as pessoas se mostrarem agradáveis é oferecendo algo. Isso é em todo Pará”.

Apesar da predominância indígena, a culinária paraense foi incorporando outros elementos. A maniçoba indígena, por exemplo, que era feita com peixe, carne de tartaruga e caças ganhou os defumados, influência europeia. O caruru e o quiabo, por exemplo, podem ser atribuídos à herança dos negros.

“Todo o processo vai sofrendo alterações. A maniçoba passou por mudanças bem semelhante ao que está ocorrendo com o açaí, que nos Estados Unidos virou shake. Toda comida, quando viaja para outro ambiente cultural, é adaptada às condições locais”.

FALAR LISBOETA

Até o século XVI o “x” era usado em palavras que depois ganharam “s”, caso de Lisboa. Daí, dizem os pesquisadores, surgiu o famoso chiadinho do paraense ao pronunciar esses fonemas.

“Esse chiadinho é lisboeta. É uma das poucas regiões do Brasil com essa pronúncia. Permaneceu uma forma portuguesa de falar, mas não é para o Estado todo. Se você for à Vigia, já se fala diferente, mas Belém é uma cidade marcada pela presença portuguesa”. Palavras que sobrevivem no nosso vocabulário ainda hoje como “ralado” para algo difícil são a prova dessa influência para além do fato de falarmos português com sotaque brasileiro.

Na dança, a miscigenação também é forte. Alguns pesquisadores atribuem o carimbó à herança negra. Citam a presença do tambor como prova. Há, contudo, traços da dança que imitam o movimento de animais, o que remete a tradições indígenas. As dificuldades para identificar a origem de uma ou outra tradição paraense são a prova de que a nossa identidade é fruto de uma receita com muitos ingredientes de diferentes origens. Uma receita que enche os olhos.

(Diário do Pará)

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