quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

CRIANÇAS: RECEITAS CASEIRAS QUE FUNCIONAM

Receitas caseiras (que funcionam com as crianças)


Canja de galinha ajuda a tratar resfriado? Abacaxi é bom contra má digestão? Vinagre acaba com as lêndeas? Farelo de aveia baixa o colesterol? Você já deve ter ouvido dicas como essas e outras tantas que passam de geração para geração. A boa notícia é que muitas já têm o aval da medicina. CRESCER ouviu especialistas e mostra, nas próximas páginas, o que é mesmo verdade – e conta ainda o que não deve ser feito de jeito nenhum

Thais Lazzeri. Fotos Gladstone Campos. Produção Mario Mantovanni

1. Cenoura faz bem para os olhos

Esse alimento é rico em betacaroteno, que se transforma em vitamina A no organismo, uma das substâncias que ajudam na formação dos olhos e das funções visuais – ela estimula a produção da púrpura visual, por exemplo, que auxilia na percepção de cores e formas. Fazê-la cozida ou assada é ainda melhor, uma vez que o calor aumenta a absorção dessa vitamina. Mas é importante lembrar que isso não significa que se seu filho comer cenoura todo dia não vá ter problemas de visão no futuro, como miopia, por exemplo, de origem genética. E também você não precisa (nem deve) oferecer cenoura em todas as refeições. Afinal, outros alimentos de tons alaranjados, como mamão e abóbora, são fontes dessa vitamina também.

2. Farelo de aveia controla o colesterol
Funciona assim: as fibras presentes no farelo “sequestram” o colesterol, e depois tudo é descartado nas fezes. Uma pesquisa feita em Chicago (EUA) mostrou esse benefício em adultos, mas os especialistas garantem que a dica vale para crianças. Você pode dar diariamente para o seu filho, uma vez que as fibras também ajudam o intestino a funcionar. Acrescente três colheres de sopa rasas por dia às refeições – mas não pode aquecer a aveia, porque aí ela perde um pouco dessa função.
3. Vinagre acaba com as lêndeas
E não é que funciona mesmo! A diluição de vinagre na água (uma parte do produto para a mesma quantidade de água) cria um meio ácido, dissolvendo a gordura que prende a lêndea (o ovo do piolho) ao cabelo – cada piolho pode viver até dois meses na cabeça e botar 300 ovos nesse período. Uma opção prática é passar a solução à noite na cabeça do seu filho, colocar uma touca de plástico para que o cheiro não incomode tanto e, pela manhã, usar um pente fino para retirá-las. O ideal é aliar esse método aos tratamentos convencionais, feitos com produtos específicos contra piolhos, que o pediatra pode indicar. Atenção: nem pense em utilizar inseticida. Eles são altamente perigosos e tóxicos, podendo causar lesão no couro cabeludo, alergia e dermatite, entre outros.
4. Bandana com gelo alivia a dor de cabeça
Um estudo brasileiro realizado ano passado pela Sociedade Brasileira de Cefaleia mostrou que mais de 80% das crianças e adolescentes já tiveram, pelo menos uma vez, dor de cabeça. E uma das maneiras de aliviar o incômodo é colocando gelo na cabeça. Isso porque, quando a dor aparece, os vasos sanguíneos se dilatam, aumentando a dor. Quando você refrigera, reduz essa sensação de incômodo.
5. Assoprar machucado reduz a dor
Incrível, não é? Quando você assopra, é como se fizesse com que o cérebro se desligasse um pouco do incômodo causado pela dor. Sempre procure abanar em vez de assoprar, porque as bactérias presentes na boca e na saliva podem infeccionar o local. Outra boa opção para aliviar o desconforto é resfriar a região, uma vez que o local do machucado fica com a temperatura elevada. E vamos combinar: o carinho que a criança recebe depois do susto também acalma.
6. Beber água faz passar o soluço
Pode ser água ou qualquer outro líquido: vai funcionar. Mas primeiro é preciso explicar por que o soluço acontece. A causa mais comum é uma irritação do chamado nervo frênico, que aciona os movimentos do diafragma. Quando seu filho engole o líquido, passa a estimular um padrão de normalidade na respiração, e a tendência é que o soluço regrida até sumir.
7. Machucado cura mais rápido se não for tampado
Joelho ralado. Essa é a máxima da infância – todo mundo já se machucou alguma vez, e com seu filho não vai ser diferente. Quando for superficial, lave com água e sabão e deixe secar naturalmente (seque ao redor, apenas), sem fazer curativo. Isso acelera o processo de cicatrização. Se ficar mais avermelhado, dolorido, se sair secreção ou se aumentar a temperatura ao redor do machucado, ligue para o pediatra.

8. Café deixa a criança mais agitada
É verdade, e você precisa, mesmo, controlar a quantidade de cafeína que seu filho consome por dia, porque ela estimula o sistema nervoso central – e isso até ele chegar na adolescência. Tudo bem colocar um pouco no leite a partir de 2 anos, mas puro deve ser evitado. O excesso, além de deixar a criança mais elétrica, causa irritação, dificuldade de concentração e até insônia. Qual é a quantidade ideal? A recomendação americana e canadense é 45 miligramas por dia de cafeína para crianças, e entram nessa conta refrigerantes e chocolates (um copo de refrigerante ou dois tabletes de chocolate já têm essa quantia). Uma xícara pequena de café tem cerca de 70 miligramas.
9. Chá de erva-cidreira acalma o bebê
Isso acontece porque essa erva tem, de fato, efeito calmante, mas nada de chá antes do bebê completar 6 meses. E não precisa acrescentar açúcar – aliás, o ideal é que você não ponha.
10. Peixe acelera o raciocínio
Você já deve ter ouvido falar nele: o ômega 3, um nutriente presente nos peixes que ajuda no desenvolvimento do sistema nervoso central. Pesquisas mostram que ele estimula as sinapses entre os neurônios, que atuam na capacidade de transmissão de informações. Em outras palavras, o raciocínio fica mais rápido. E não para por aí. Estudos já revelaram que ele tem um efeito protetor contra a asma e evita até o acúmulo de gordura nas paredes das artérias. O baixo consumo estaria associado a problemas de comportamento, como dificuldade para se concentrar. Ofereça pelo menos três vezes por semana – os peixes de água fria (sardinha, atum e salmão) são os mais ricos com esse nutriente.
11. Maisena para tratar assadura
O calor e a umidade presentes na fralda podem provocar assaduras no seu bebê. Quando perceber que a pele vai começar a ficar vermelhinha (e o suor é o grande vilão), ponha um pouco de maisena no bumbum toda vez que for trocá-lo. Fique tranquila: ela não tem o mesmo prejuízo do talco – que pode causar crises respiratórias na criança – porque o pó não é tão fino e não tem perfume. Na hora de higienizar, use água morna e seque bem. Se perceber que a situação não melhorou, converse com o pediatra.
12. Canja de galinha ajuda a tratar gripe
Diferentemente do que você deve ter ouvido por aí, canja de galinha não vai curar a virose. Mas é certo que vai fazer com que seu filho se sinta melhor porque a composição dessa receita repõe vitaminas, minerais, carboidratos e proteínas, que favorecem a recuperação em casos de doenças virais e inflamatórias – e o calor ainda ajuda a expectoração. Isso, combinado com repouso, é sucesso garantido. Outro conhecido aliado contra a gripe é a vitamina C, presente no suco de laranja. Mas, para conseguir essa proteção, seu filho teria de consumir até cinco unidades dessa fruta por dia – e isso soma muitas calorias.
13. Alho faz a picada de inseto parar de coçar
O cheiro não é convidativo, mas passar alho descascado logo depois que seu filho tomou uma picadinha vai reduzir a coceira, uma vez que ele tem propriedades anti-inflamatórias. Apesar de ser fonte de zinco e selênio, que dão uma ajuda para o sistema imunológico, o alho não vai curar a mordida. Mas ele vai tratar do incômodo. Converse com o pediatra e veja qual medicamento você pode usar.
14. Gengibre melhora dor de garganta e enjoo
Sim, ele tem essas duas propriedades (além de dar um toque especial em várias receitas): é antiermético (reduz a liberação da bile, que aumenta a sensação de náusea), e tem ação anti-inflamatória, que contribui para melhorar a dor de garganta. Uma opção bem prática é descascá-lo e fazer infusão com água. No caso de enjoo, sirva o chá em temperatura ambiente ou frio, porque o calor faz a bile ser liberada, aumentando o desconforto. Outra dica é ralar e colocar no preparo de alguma carne ou na salada.
15. Linhaça, abacaxi e ameixa ajudam o intestino a funcionar

Não é difícil encontrar um produto nas gôndolas do supermercado que tenha linhaça. Considerada um alimento funcional, é rica em fibras, que auxiliam para o intestino trabalhar melhor. Prefira a linhaça dourada já moída, porque aí você tem um aproveitamento melhor da fibra. Vale misturar no leite, colocar nas frutas e até em bolos. Ameixa preta também atua no mesmo esquemaque a linhaça – uma boa sugestão é batê-la no liquidificador com iogurte. Já o abacaxi possui uma substância, a bromelina, que auxilia na quebra das moléculas de gordura que vão ser absorvidas pelo organismo, facilitando o processo de digestão e o trabalho do intestino. Mas não se esqueça: para o intestino do seu filho funcionar bem, ele precisa ter uma dieta saudável, comer frutas, legumes e verduras e consumir líquidos também, que ajudam na formação do bolo fecal.
16. Água com açúcar dá sensação de bem-estar
Caiu, se machucou, e lá vinha alguém trazendo logo um copo de água com açúcar. Quantas vezes você tomou quando era criança? As pesquisas mostram que o açúcar, assim como o chocolate, libera serotonina, que dá sensação de prazer e bem-estar. Mas o açúcar, por si só, não tem propriedade calmante. Não se pode esquecer também que, quando chega a água com açúcar, a criança já está recebendo afeto e atenção, que ajuda (e muito) a deixar qualquer um mais tranquilo.
17. Maçã e frutas vermelhas fortalecem o sistema imunológico
Sim, todas elas têm essa mesma propriedade: de se aliar ao nosso sistema de defesa, uma vez que são antioxidantes potentes, evitando o envelhecimento das células (por isso garantem uma pele bonita). O adulto, que, quando criança, consumiu mais desses alimentos, vai estar protegido contra agentes invasores.
18. Mel funciona contra a tosse
O mel melhora a tosse porque inibe a proliferação de bactérias e reduz desconfortos da deglutição. Mas só pode ser dado para maiores de 1 ano e sabendo qual a procedência do mel. Dê duas a três colheres por dia puro, ou misturado com chá.
19. Chá verde reduz a diarreia
Sabe aquela história “comi alguma coisa que não me fez bem?” Pois é, também acontece com as crianças, e esse chá é indicado para essas situações. Não se trata de cura, mas com ele você consegue aquela brechinha para sair correndo de casa e levá-lo até o hospital sem acidentes no percurso. Por ser fonte de cafeína, deve ser dado para crianças a partir de 2 anos.
20. Banho morno baixa a febre
Se a criança estiver com febre, primeiro ligue para o pediatra para ver se é pertinente o uso de alguma medicação. Até que o remédio comece a agir, o que pode levar até 40 minutos, dê um banho morno mais para frio, de imersão ou no chuveiro, de cinco a dez minutos. Assim, o corpo perde calor para a água. É um paliativo enquanto a medicação não funciona.
Para tomar Cuidado
Assim como existem muitos tratamentos caseiros que são eficazes, há aqueles que não funcionam ou até que podem fazer mal ao seu filho. Colocar café para estancar o sangramento é um deles. Além desse alimento não ter essa propriedade, ou seja, não vai funcionar, há o risco de irritar ainda mais o local, prejudicando um futuro tratamento. Usar azeite quente para tratar dor de ouvido também é lenda, e pode piorar alguma lesão existente. O melhor é fazer compressa quente, com uma fralda de pano, por exemplo, e ligar para o pediatra. Outra dica que passa de geração para geração é tratar queimaduras com pasta de dente ou pomadas. Há um risco de a situação ficar ainda pior ou de infeccionar o local. Se a queimadura for leve, lave a região com água fria e ligue para o pediatra. Se for grave, fale com o médico a caminho do pronto-socorro.

Fontes: Carlos Brunini, pediatra, médico homeopata, professor da Faculdade de Ciências da Saúde (SP); João Ernesto de Carvalho, biomédico, coordenador da Divisão de Farmacologia e Toxicologia do CPQBA da Universidade Estadual de Campinas (SP); José Gabel, pediatra, membro do Departamento Científico de Pediatria Ambulatorial da Sociedade Brasileira de Pediatria; Gilberto Simeone Henriques, nutricionista, professor da Universidade Federal de Minas Gerais; Marcelo Reibscheid, pediatra e neonatologista do Hospital São Luiz (SP); Renata Lamonica, homeopata, da Faculdade de Medicina de Botucatu/Unesp (SP)

ÍNDIOS: TUTELA LIMITA DIREITOS INDÍGENAS


Empresa é condenada por uso irregular de terras indígenas no RS

Agência Estado


A Justiça Federal de Carazinho (RS) condenou uma empresa agrícola do município de Planalto, no interior do Rio Grande do Sul, por arrendamento irregular de terras indígenas e obtenção de empréstimos bancários em nome de membros da comunidade da Reserva de Nonoai. A sentença, publicada na sexta-feira (24/2), também determinou o pagamento de indenização de mais de R$ 1 milhão por danos morais e materiais causados ao grupo de indígenas. Cabe recurso.

O Ministério Público Federal entrou com Ação Civil Pública após investigações que apontaram o arrendamento e a utilização das terras indígenas para plantação de girassol e milho, o que é proibido por lei. De acordo com informações do processo, a empresa também seria responsável pela articulação de financiamentos feitos em nome dos índios na agência do Banco do Brasil de Planalto e pela comercialização da produção, de acordo com notas fiscais apreendidas.
No início da ação, em 2009, o juiz federal Frederico Valdez Pereira já havia concedido liminar, determinado que a agricultora ou qualquer pessoa a seu mando se abstivesse de ingressar na Reserva Indígena de Nonoai, sob pena de pagamento de multa diária. Na sentença publicada agora, o juiz destacou que a legislação já previa a proibição de arrendamento, posse ou ocupação de qualquer terra indígena desde a década de 1970. Além disso, a Constituição Federal de 1988 confirmou que as terras tradicionalmente ocupadas por índios são bens da União, cabendo a sua posse permanente e o usufruto exclusivo das riquezas naturais existentes às comunidades indígenas.
O juiz concluiu que não havia qualquer justificativa plausível para a celebração de um acordo de produção entre os indígenas e a agricultora. "Os recursos para a aquisição dos insumos e sementes eram fornecidos pelo Pronaf (Programa Nacional da Agricultura Familia), em financiamentos contratados pelos indígenas com o Banco do Brasil. A produção, por seu turno, poderia ser comercializada diretamente pelo grupo indígena, podendo ter pedido auxílio da Funai (Fundação Nacional do Índio) para tanto", afirmou.
Além do pagamento da indenização, a sentença também condenou a empresa a se abster de intermediar financiamentos, celebrar contratos ou realizar negócios com os indígenas e, ainda, a quitar todos os empréstimos bancários feitos em nome da comunidade. Para garantia do cumprimento da decisão, foi decretada a indisponibilidade de bens da empresa no valor de R$ 3 milhões. Com informações da Assessoria de Imprensa da Justiça Federal no RS.
Leia aqui a íntegra da sentença.

JUÍZES: A SOCIEDADE PRECISA APOIAR AS PROPOSTAS DO CNJ

Ministra quer mudar Constituição para CNJ punir juízes corruptos 


A corregedora do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministra Eliana Calmon, voltou a defender nesta terça-feira competências estabelecidas em lei para processar e julgar juízes que pratiquem atos de improbidade e corrupção. Em audiência pública na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, ela defendeu a aprovação de uma proposta de emenda à Constituição que trata do assunto e falou sobre a dificuldade das corregedorias estaduais de fazer o trabalho de fiscalização e de processar juízes, especialmente desembargadores.

"No caso dos desembargadores, eles são julgados pelos seuscolegas também desembargadores. E é muito difícil você julgar um igual, um amigo  querido. Os juízes de primeira instância estão um pouco mais distantes, é mais fácil, mas os desembargadores estão ali trabalhando lado a lado com os corregedores", explicou a ministra.

Calmon também falou sobre as dificuldades estruturais das corregedorias estaduais que, segundo ela, são "estranguladas" pelos tribunais quando começam a desagradar aos desembargadores. Além disso, a ministra denunciou a interferência política de corregedores que almejam assumir a presidência do tribunal onde atuam. "Os melhores corregedores são os que não terão idade para se candidatar a presidente depois", ironizou.
Segundo Eliana Calmon, "todos sabem quem são os maus juízes", mas aqueles que agem corretamente se calam para não se indispor com os colegas. "A magistratura séria, decente, não pode ser misturada com meia dúzia de vagabundos que se infiltraram na magistratura."
A PEC que trata das competências do CNJ é de autoria do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) e sugere uma regulamentação mais clara sobre as competências do conselho. Segundo Torres, a proposta foi apresentada antes da decisão recente do Supremo Tribunal Federal que considerou válida a competência do CNJ para processar e punir juízes, independentemente de os processos terem sido iniciados nas corregedorias estaduais.
Para o senador, ainda existe margem para questionamentos, e a aprovação da PEC vai trazer mais segurança para a atuação do órgão corregedor. "A decisão do Supremo é só liminar e foi por um voto, quer dizer, é por uma margem precária. Essa PEC deixa claro que o CNJ tem a competência para processar e julgar originariamente atos de juízes e desembargadores. Isso é importante porque o CNJ, ao ver que as corregedorias estaduais não estão tomando providências, poderá agir", declarou o senador.
O vice-presidente da Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho (Anamatra), Paulo Schimidt, também participou da audiência e disse que a classe não se opõe aos poderes do CNJ. Schimidt, no entanto, cobrou que o conselho ofereça apoio aos magistrados na mesma proporção em que fiscaliza a atuação deles. "Os juízes esperam muito do CNJ, só na questão disciplinar, no cumprimento de metas, na busca de eficiência, mas também esperam muito do CNJ na defesa da independência do juiz."
A expectativa é de que a PEC que trata dos poderes do CNJ seja votada na CCJ do Senado na próxima semana. O relator da proposta é o senador Randolfe Rodrigues (Psol-AP), que deverá acatar novas sugestões para ampliar ainda mais os poderes do conselho.

JUÍZES: "DECISÃO JUDICIAL NÃO SE DISCUTE, SE CUMPRE"?

CNJ afasta juiz que liberou quase R$ 1 milhão em favor de réu já falecido no Piauí



O CNJ (Conselho Nacional de Justiça) decidiu afastar temporariamente das funções o juiz João Borges de Sousa Filho, responsável pela 2ª Vara Cível de Picos (PI), a 308 km de Teresina. Durante sessão realizada nesta terça-feira (28), o pleno aprovou a abertura de processo administrativo disciplinar contra o magistrado para investigar, entre outras irregularidades, a liberação de quase R$ 900 mil a um réu já falecido. 

A decisão do CNJ acatou pedido de revisão feito pela promotoria de Justiça de Picos questionando decisão estadual do TJ-PI (Tribunal de Justiça do Piauí), que julgou e decidiu arquivar o processo referente ao caso. O afastamento vai durar até o final das investigações, que podem resultar em punição ao juiz.

Segundo o relator do processo no CNJ, conselheiro José Lúcio Munhoz, o juiz piauiense deferiu indevidamente duas liminares em processos cautelares de arresto, que, segundo ele, continham fraudes.

O relator citou que uma das liminares foi concedida a favor de uma pessoa já falecida, que teve a liberação de um valor de R$ 895,1 mil. Segundo o CNJ, o réu na ação já “havia falecido anos antes do próprio documento que ele teria eventualmente assinado e que fundamentava o pedido de cautelar.”

Outro caso suspeito do magistrado envolve uma outra ação de arresto, com liberação de um valor de R$ 139,3 mil. Nesse caso, o réu do processo sequer foi citado.

Segundo o conselheiro federal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e professor de direito criminal, Welton Roberto, ação de arresto é aquela que torna um bem indisponível. "Na hora em que um juiz dá uma liminar tirando o arresto, ele deixa o bem liberado para venda. É praticamente como um sentença, pois se o objeto da ação é o bem, e ele pode ser vendido, o que vai fazer depois para ter garantias no processo? O juiz tem de ter a cautela de, se conceder uma liminar, pedir uma substituição do bem para deixar a ação com garantia”, explicou ao UOL.

Outras suspeitas

Nas duas ações questionadas pelo relator do caso, haveria documentos e informações falsas nos autos, além outras falhas processuais. Outro ponto questionado pelo CNJ é que, apesar de tramitar em Picos, nenhuma das ações, advogados, autores ou requeridos eram residentes na cidade.

O conselheiro do CNJ solicitou ainda a apuração da conduta do desembargador Haroldo Oliveira Rehem, que apresentou relatório e voto pelo arquivamento das investigações contra o juiz no TJ-PI, mas os conselheiros rejeitaram o pedido.

Por conta das falhas apresentadas no processo de Picos, o CNJ expediu uma recomendação aos tribunais estaduais para que os juízes, antes de determinarem uma citação por edital, tentem confirmar o endereço ou encontrar o paradeiro dos réus através dos convênios disponibilizados pelo poder Judiciário.

A reportagem UOL entrou em contato com a 2ª Vara Cível de Picos, onde o juiz era titular, mas foi informado que João Borges fora transferido para Teresina. O secretário da Vara, porém, não soube informar o novo local onde o magistrado está lotado. A assessoria de imprensa da Corregedoria de Justiça informou que iria tentar conseguir o telefone celular do juiz, mas até o fim da manhã desta quarta-feira (29) não deu retorno com o número.

SAÚDE: CIRURGIA PODE FRUSTRAR SONHOS DE OBESOS


Metade dos obesos que reduzem o estômago volta a engordar

Médicos explicam quais pessoas podem fazer a cirurgia bariátrica.
Veja os principais procedimentos e os prós e contras deles.

Do G1, em São Paulo

Metade das pessoas obesas que fazem redução de estômago volta a engordar parcialmente, e 5% ganham todo o peso novamente. Por isso, não adianta apenas se submeter à cirurgia bariátrica: é preciso mudar de hábitos e ter uma reeducação alimentar para o resto da vida.

A operação também deve ser a última alternativa para quem precisa emagrecer – seja por obesidade mórbida ou por doenças associadas ao excesso de peso.

Segundo o endocrinologista Alfredo Halpern e o cirurgião bariátrico Marco Aurélio, a bariátrica não faz milagres e envolve riscos e eventuais complicações no pós-operatório, como todo procedimento de alta complexidade. E, ao contrário do que muita gente pensa, o estômago das pessoas gordas não é maior nem mais elástico que o das magras.


Esse tipo de recurso é praticado no Brasil há 20 anos, e cada vez mais há pacientes que passam por ele. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica, 60 mil cirurgias foram realizadas em 2010 no país, um aumento de 33% em relação a 2009. Desse total, 35% foram por videolaparoscopia, que são menos invasivas e já cobertas pelos planos de saúde. Estudos apontam perda média de 60% do peso original.

Há basicamente três tipos de cirurgia: a que apenas reduz o estômago, a que diminui e modifica um pouco o curso do intestino e a que reduz e altera muito o curso intestinal. O desvio intestinal permite que o órgão absorva menos gordura, além de estimular a produção de hormônios que diminuem a fome e melhoram a diabetes.

Nas primeiras duas ou três semanas, o paciente deve bebericar, a cada meia hora, cerca de 100 ml de líquidos como água, chá, gelatina, água de coco, isotônico, caldos caseiros de carne e de frango, sem resíduo algum. Passada essa fase, entram pequenas quantidades de macarrão e carne moída.

Ter sucesso na cirurgia bariátrica significa, após 5 anos, perder pelo menos metade do excesso. Por exemplo, uma pessoa de 100 kg cujo peso ideal é 60 kg precisa estar, depois de 10 anos, com até 80 kg. Para indivíduos com índice de massa corporal (IMC) entre 35 e 40, o sucesso é de 90%. Para IMCs maiores, a taxa cai para 70%.

É importante tomar cuidado especial com os carboidratos (pães, massas e doces), que são facilmente absorvidos e digeridos mesmo pelos operados. Gorduras e proteínas também devem ser evitadas.


As complicações mais graves dessa cirurgia são os sangramentos (2% dos casos), infecções, vazamentos das costuras, embolia pulmonar e hérnias. Também pode ocorrer obstrução intestinal, mesmo depois de muito tempo da operação.

Durante pelo menos 18 meses, é possível ficar com sobras de pele. Esse é o prazo para perder peso e fazer uma cirurgia plástica.

Para fazer a bariátrica, certifique-se de que seu médico é um cirurgião com formação específica e verifique se a equipe do profissional inclui endocrinologista, nutrólogo ou nutricionista e psiquiatra ou psicólogo.
No hospital, são necessários um anestesista, um fisioterapeuta e uma equipe de enfermagem. O hospital também precisa ter unidade de terapia intensiva (UTI).

Outros cuidados
- Deve haver a compreensão do paciente e dos familiares sobre os riscos da cirurgia e mudanças de hábitos
- O acompanhamento pós-operatório precisa ser feito com uma equipe multidisciplinar, a longo prazo
- A cirurgia não é milagrosa: a obesidade é uma doença crônica e deve ser controlada a vida inteira

Dados brasileiros
- Segundo o IBGE, até 2010 havia 12,5% dos homens adultos com obesidade e 16,9% das mulheres
- A incidência é maior entre homens de 45 a 54 anos e de mulheres entres 55 e 64 anos
- O excesso de peso e a obesidade atingem de duas a três vezes mais homens de maior renda, em áreas urbanas das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste

Possíveis consequências da cirurgia
- Fraqueza
- Anemia
- Dificuldade para beber grandes quantidades de líquido
- Excesso de pele, que pode ser corrigido com cirurgia plástica

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

INTERNET: TUDO PELA SEGURANÇA NA REDE

Google oferece US$ 1 milhão para quem hackear o Google Chrome

Para o TechTudo

Google anunciou nesta segunda-feira (27) que oferece um prêmio de até US$ 1 milhão para aqueles que encontrarem falhas no Chrome. O objetivo é incentivar hackers habilidosos a violarem a segurança do navegador de Internet. O evento acontece na próxima semana durante a conferência de segurança CanSecWest em Vancouver, no Canadá.

Não é a primeira vez que o Google premia quem encontra falhas no navegador. Porém, nunca o prêmio foi tão alto. Além disso, o Google pagará US$ 20 mil para qualquer participante do evento que encontrar falhas em jogos nas plataformas Windows e Flash, em dispositivos de segurança, ou em localização de problemas que afetam os usuários de todos os navegadores.

O prêmio sobe para US$ 40 mil em cada falha encontrada no Google Chrome. Os hackers que explorarem os bugs no Chrome, ganharão US$ 60 mil por cada erro. O limite é de US$ 1 milhão. As recompensas do Google superam os prêmios oferecidos pelos próprios organizadores do concurso, a Zero Day Initiative, propriedade da HP.

O Google segue o mesmo exemplo da Mozillae do Facebook e oferece recompensas aos seus pesquisadores para detectar erros nos produtos. Nos últimos dois anos, mais de US$ 300 mil foram pagos para os usuários e funcionários da empresa que encontraram falhas de segurança no Chrome. Os hackers praticamente ignoraram o primeiro ano que o navegador apareceu no concurso Pwn2Own. Eles se dedicaram a explorar falhas em outros softwares e dispositivos considerados mais vulneráveis.

No ano passado, quando o Google ofereceu US$ 20 mil adicionais, para qualquer pessoa que encontrasse falhas no Chrome, ninguém aceitou o desafio. Nesse ano, como a própria empresa alegou estar ansiosa para descobrir os bugs em seus códigos e corrigir o quanto antes, eles resolveram oferecer um prêmio milionário.

O Google explica no blog oficial que o concurso anual dedicado aos hackers é uma forma da empresa testar a confiabilidade do Google Chrome. Além disso, com essa iniciativa, a empresa conta com alguns dos melhores hackers do mundo para explorar as falhas do software e corrigir. Porém, para comprovar o erro detectado, o Google exige que o vencedor apresente o bug em detalhes para a equipe de segurança. Desse modo, é possível a correção dos erros e a melhoria da segurança nas futuras versões.

Via Forbes

MEIO AMBIENTE: SOMENTE O IBAMA PODERÁ APLICAR MULTAS, GARANTE A LEI


Projeto devolve atribuições do Ibama na Amazônia e no Pantanal


A Câmara analisa o Projeto de Lei Complementar 117/11, do Poder Executivo, que devolve ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) o poder de lavrar auto de infração ambiental e instaurar processo administrativo para a apuração de infrações ambientais cometidas na Amazônia Legal e no Pantanal.
Esse poder foi limitado pela Lei Complementar 140, sancionada em dezembro do ano passado pela presidente Dilma Rousseff. A lei define as competências da União, dos estados e municípios na proteção do meio ambiente.
O objetivo da lei foi dar segurança jurídica aos empreendedores e evitar a sobreposição de atribuições – por exemplo, a possibilidade de o Ibama e os órgãos estaduais e municipais de meio ambiente aplicarem punições para um mesmo crime ambiental.
Um dos principais pontos da lei foi definir que a competência para lavrar o auto de infração ambiental pertence ao órgão responsável pelo licenciamento ou pela autorização de determinado empreendimento ou atividade.
Como a mesma lei deu aos estados e municípios a competência para licenciar e autorizar a maior parte dos empreendimentos, a ação do Ibama foi limitada. A lei permite ampla fiscalização, mas não é clara quanto ao poder de lavrar o auto de infração e instaurar o processo administrativo.
Segundo o Executivo, o objetivo do projeto é deixar claro que o Ibama tem esse poder nos dois biomas, pelo fato de contarem com proteção especial da Constituição.
O projeto estabelece também que, se houver mais de um auto de infração para o mesmo delito, prevalece o que tiver sido lavrado primeiro, e os demais são anulados. Pela LC 140/11, prevalece o auto de infração do órgão que tiver a competência para o licenciamento.
Críticas
A LC 140/11 surgiu de um projeto apresentado em 2003 pelo deputado ambientalista Sarney Filho (PV-MA) e tinha o objetivo de combater o tráfico de animais silvestres. Durante oito anos de tramitação, a proposta foi inteiramente alterada nas comissões da Câmara e do Senado. Depois de sancionada, a lei recebeu diversas críticas de ambientalistas, em razão da redução do poder de polícia do Ibama.

Tramitação
A proposta, que tramita em regime de prioridade, será analisada pelas comissões da Amazônia, Integração Nacional e de Desenvolvimento Regional; de Trabalho, de Administração e Serviço Público; de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Depois será votada pelo Plenário.

HIDRELÉTRICAS: PEIXES DO RIO MADEIRA FORAM EXTINTOS?


Peixes do Madeira desaparecem como os cientistas previram. Depois vem Belo Monte


Os peixes do rio Madeira estão desaparecendo. E as causas desse desaparecimento são sistêmicas, conseqüência de uma grande intervenção humana no ecossistema do rio, que os cientistas haviam previsto que teria impacto dramático sobre a população de peixes do rio. E é isso que está ocorrendo neste momento, como revelou a “Folha de S.Paulo” em sua edição de 8/1: os peixes do rio Madeira já sumiram na região do lago da hidrelétrica de Santo Antônio; outra hidrelétrica está em construção, chamada Jirau, com danos cumulativos previstos há pelo menos seis anos.
As decisões que levaram ao desaparecimento da população de peixes do rio Madeira foram tema de discussão longa nos anos anteriores, com envolvimento de inúmeros cientistas especializados em clima, em hidrografia e ictiologia (estudo dos peixes) e o que está acontecendo foi previsto naqueles relatórios, mas o presidente da República e a ministra da Casa Civil mandaram atropelar os estudos e tocar as obras.
E o que acontece agora no Madeira é uma sombra sobre os argumentos do governo em relação à próxima vítima, o rio Xingu e Belo Monte.
Pense o seguinte: de todos os rios deste planeta, em todos os países de todos os continentes, o rio Madeira é o 17º. maior. E os seus peixes estão desaparecendo como mostrou a “Folha de S.Paulo” no domingo, 8/1. A causa dessa destruição foi a decisão do governo brasileiro de construir duas grandes hidrelétricas naquele rio sem levar em consideração de fato os relatórios ambientais que alertavam para o risco de que a obra poderia dizimar a fauna do rio e por conseqüência toda a economia formada naquela região da Amazônia em torno da pesca artesanal.
O rio Madeira é um dos afluentes do rio Amazonas, com uma fauna tão peculiar e rica que é dos únicos rios do mundo de que se pode dizer que tinha uma espécie animal rara completamente exclusiva de suas águas: o boto vermelho do rio Madeira. Sobre essa espécie, ameaçada, ainda não há estudos sobre o que aconteceu nos últimos meses. Mas o jornal revelou em sua reportagem do dia 8 que se inviabilizou a pesca dedicada a uns tantos tipos de peixe (chamados genericamente de “bagres”), que gerava 29 mil toneladas/ano de pescados. São estes peixes que “sumiram” segundo o relato dos pescadores ao jornal. Esta atividade econômica acabou.
O governo federal dirá que não, que a pesca está reduzida temporariamente em algum trecho do rio, tentará levar o caso com a barriga mais para a frente, afastará os jornalistas com desculpas improvisadas enquanto os pescadores se acostumam com a falta de peixes, aceitam esmolas oficiais e arrumam outra ocupação. Mas o fato é que acabou.
A “Folha de S.Paulo” noticiou com destaque médio (manchete de página interna) no dia 8 que os pescadores deslocados pela represa da hidrelétrica de Santo Antônio pedem prorrogação da ajuda que recebem do Estado a guisa de indenização porque os peixes desapareceram e não têm como sobreviver de seu trabalho tradicional, apesar de estar acabando a ajuda de custo prevista no orçamento da obra. Ao lado da reportagem, um texto de uma coluna continha uma declaração de um funcionário da área de sustentabilidade da empresa, chamado Ricardo Márcio Martins Alves, alegando que os pescadores terão que aprender novas técnicas de pesca, pois os peixes que eles pescavam costumavam se concentrar junto a corredeiras do rio e que agora, com a formação do açude para alimentar as turbinas da hidrelétrica, as corredeiras foram cobertas e os peixes se espalharam pelo lago todo. A técnica para achá-los deverá ser outra.
A informação pode ensejar pelo menos estas hipóteses:
1)      A que desconfia da versão dos pescadores: eles preferem seguir sem trabalhar, vivendo às custas do Estado e por isso alegam que os peixes sumiram para conseguir mais dinheiro;
2)      Uma menos apocalíptica, que desconfia da versão da empresa: os peixes sumiram temporariamente e o orçamento da obra subestimou a necessidade de ajuda de custo a populações da região, agora essa ajuda de custo terá que ser prorrogada por certo período de tempo, o governo terá que providenciar cursos de técnicas alternativas de pesca, aumentando razoavelmente o custo do projeto;
3)      Uma hipótese mais apocalíptica, que também desconfia da versão oficial: os peixes foram extintos ou reduzidos radicalmente para sempre, o impacto ambiental da obra foi subestimado pelo governo e agora o orçamento da obra terá que ser substancialmente ampliado para dar conta do custo eterno da extinção da pesca regional e o país terá que se entender com o grande impacto ambiental real causado pela hidrelétrica.
Recentemente foi inaugurado o lago da primeira hidrelétrica do rio Madeira construída a partir da decisão do então presidente Lula e da então ministra Dilma Rousseff de construir na Amazônia o plano produzido nos anos 1970 pelos governos da Ditadura Militar de 1964-1985. Depois de anos de governo em que pouco havia realizado em produção de energia, com medo de um novo apagão como o que assolou a popularidade de seu antecessor, FHC, o governo Lula resolveu desarquivar o projeto militar de construir um complexo de hidrelétricas na planície Amazônica. A primeira, Santo Antônio, está começando a funcionar no rio Madeira; a segunda, Jirau, logo vai produzir seus efeitos. Em breve, conforme a vontade do governo, começa a construção de Belo Monte. Na semana passada, a presidente autorizou a redução de cinco reservas florestais para seu alagamento alimentar três hidrelétricas. Várias outras hidrelétricas de grande porte estão em projeto ou construção na Amazônia, no Tapajós; outras virão no Xingu após Belo Monte, tudo sendo realizado estritamente conforme o plano produzido pelo regime ditatorial, quando não havia oposição; plano que foi congelado por causa da reação das populações da região a partir da redemocratização e agora descongelado e retomado, em um regime democrático peculiar, sem oposição.
É muito difícil saber exatamente o que vai acontecer no Madeira após a inauguração das duas hidrelétricas, mas algumas informações concretas já existem:
1)      O funcionário da usina introduziu em toda a discussão uma novidade absoluta: em nenhum estudo de impacto ambiental anterior, do governo ou externo, foi mencionada a necessidade ensino de novas técnicas de pesca por decorrência desse efeito “espalhamento” que ele sugere em sua declaração à Folha. O que sugere a hipótese de que os cientistas todos que se debruçaram sobre o assunto não tenham previsto este aspecto que os fatos concretos revelaram; ou outra, de que o funcionário tenha inventado agora essa versão.
2)      Os relatórios de impacto ambiental anteriores à obra previam danos graves para a população de peixes da região, especialmente para as várias espécies de bagres que sustentavam a riqueza da pesca artesanal do rio Madeira que são bem coerentes com o que está acontecendo, sugerindo a hipótese de que apesar de o presidente Lula, pessoalmente, ter desacreditado os cientistas e mandado o governo atropelar a resistência das áreas ambientais, os relatórios estavam certos.
Entre os estudos de impacto ambiental que alertavam para o risco definitivo à população de peixes do rio Madeira, talvez os mais significativos sejam os produzidos pelo cientista Philip Fearnside, cientista do Inpa, americano radicado na Amazônia desde 1978, que participou pessoalmente da revelação (ainda durante a Ditadura) do plano de construção de várias hidrelétricas no Xingu, incluindo a hidrelétrica que agora foi denominada de Belo Monte. Como membro do IPCC (o painel intergovernamental sobre mudanças climáticas da ONU), Fearnside ganhou o prêmio Nobel de 2007. Mas embora seja um cientista trabalhando no Brasil, cujos conhecimentos são produzidos para órgãos brasileiros e revertem para a comunidade científica brasileira, ele não recebeu o reconhecimento ufanista que o Brasil costuma conceder a seus destaques internacionais.
Seus textos (acessíveis no site http://philip.inpa.gov.br/ ) reúnem uma infinidade de dados sobre o meio ambiente e o clima na Amazônia, em estudos seus ou em referências aos estudos de outros cientistas, como é o caso do texto publicado em http://www.mp.ro.gov.br/web/guest/Interesse-Publico/Hidreletrica-Madeira que é um resumo comentado dos estudos feitos, inclusive das ameaças para as espécies pescadas na região. O texto é de 2006. Nada foi feito para evitar os danos. O governo tratou a obra como irreversível e inegociável.
Em resumo, o que Fearnside diz (nesse estudo e em entrevista a este repórter) é que os bagres pescados no Madeira são peixes de fundo de rio, onde há oxigênio. Com a criação de um grande lago, o fundo desse reservatório não tem oxigênio (devido à profundidade) e não há peixe portanto. Além disso, esses peixes nadam rio acima para pôr ovos e a passagem pela barreira da hidrelétrica se torna muito difícil ou impossível (neste momento, inclusive, está fechada a rampa de transposição criada para dar uma possibilidade de os peixes subirem o rio); e as larvas (os filhotes) dos peixes descem o rio à deriva enquanto crescem para se alimentar no Baixo rio Amazonas. Agora, nessa deriva, as larvas terão que atravessar as turbinas da hidrelétrica, um triturador de grandes proporções. Esses três fatores foram apontados como ameaças possivelmente intransponíveis para as espécies de peixe. O desaparecimento apontado pelos pescadores indica que o cientista americano e todos os outros tinham razão.
Os peixes se foram e como eles outras formas de vida do rio, já ameaçado pelo esgoto das todas as cidades ribeirinhas. Tudo vai piorar com a hidrelétrica de Jirau. E o mesmo vai acontecer com Belo Monte, no Xingu, pois o governo atropela os alertas ambientais e depois dá desculpas esfarrapadas para enganar jornalistas, como aconteceu com a Folha.