quarta-feira, 31 de outubro de 2012

BELO MONTE: EXÉRCITO VAI PROTEGER EMPREENDIMENTO


Exército realiza exercícios e manobras em Belo Monte
 
 
Norte Energia cedeu espaço para exercício militar em Belo Monte
 
 
 

 
Pelo menos 250 militares do 51º Batalhão de Infantaria de Selva - 51 º BIS, sediado em Altamira, participaram de um treinamento operacional dentro do Sítio Pimental, um dos quatro canteiros da Usina Hidrelétrica Belo Monte.
 
 
Segundo o tenente-coronel Volber Freire, comandante do Batalhão, a participação em operações desse tipo está prevista na Constituição Federal e pode se assemelhar a um treinamento para situação real. “O adestramento pode ser feito não só aqui, mas em qualquer empreendimento que tivéssemos a ordem para realizar um posto de segurança estático”, completou o militar, lembrando que a Norte Energia cedeu o espaço para o exercício.
 
 
Durante toda a terça-feira (30), militares do 51º BIS se reuniram nas instalações do Sítio Pimental e realizaram a ocupação de uma instalação considerada um ponto estratégico para que se tenha o controle do acesso e seja permitido o livre funcionamento do local.
 
 
Os militares ocuparam logo cedo a portaria do sítio e distribuíram as companhias pelas áreas industrial e de infraestrutura do canteiro, como o paiol de explosivos e os acessos terrestres e fluviais. “Nossa finalidade é que todos os soldados e oficiais partam de uma situação de não conhecimento da missão e faça o deslocamento com todo desdobramento logístico e operacional para a ocupação”, disse o comandante.
 
 
O superintendente de obras da Norte Energia, José Biagione, participou da palestra explicativa sobre a ação. “É uma honra recebermos aqui a tropa do Exército Brasileiro para treinar suas tropas”, afirmou o engenheiro.
 
 
 
O treinamento começou na madrugada de 30 de outubro e terminou no final do mesmo dia. Os militares iniciaram a desmobilização do canteiro no fim da tarde e realizaram, durante a madrugada, a marcha de 42 quilômetros até a rodovia BR-230.
 
 
 
Assessoria de Imprensa – Norte Energia S.A.
 
 
 

CORRUPÇÃO: A VERDADE PRECISA DOER


Os Marginais do Poder!
 
 

Por Marco Antônio Villa (*)
O Estado de São Paulo
 
 



 
Vivemos um tempo curioso, estranho. A refundação da República está ocorrendo e poucos se estão dando conta deste momento histórico. Momento histórico, sim. O Supremo Tribunal Federal (STF), simplesmente observando e cumprindo os dispositivos legais, está recolocando a República de pé.
 
 Mariana - símbolo da República Francesa e de tantas outras, e que orna nossos edifícios públicos, assim como nossas moedas - havia sido esquecida, desprezada. No célebre quadro de Eugène Delacroix, é ela que guia o povo rumo à conquista da liberdade. No Brasil, Mariana acabou se perdendo nos meandros da corrupção. Viu, desiludida, que estava até perdendo espaço na simbologia republicana, sendo substituída pela mala - a mala recheada de dinheiro furtado do erário. Na condenação dos mensaleiros e da liderança petista, os votos dos ministros do STF têm a importância dos escritos dos propagandistas da República. Fica a impressão de que Silva Jardim, Saldanha Marinho, Júlio Ribeiro, Euclides da Cunha, Quintino Bocayuva, entre tantos outros, estão de volta. Como se o Manifesto Republicano de dezembro de 1870 estivesse sendo reescrito, ampliado e devidamente atualizado. Mas tudo de forma tranquila, sem exaltação ou grandes reuniões.
 
 
O ministro Celso de Mello, decano do STF, foi muito feliz quando considerou os mensaleiros marginais do poder. São marginais do poder, sim. Como disse o mesmo ministro, "estamos tratando de macrodelinquência governamental, da utilização abusiva, criminosa, do aparato governamental ou do aparato partidário por seus próprios dirigentes". E foi completado pelo presidente Carlos Ayres Brito, que definiu a ação do PT como "um projeto de poder quadrienalmente quadruplicado. Projeto de poder de continuísmo seco, raso. Golpe, portanto". Foram palavras duras, mas precisas. Apontaram com crueza o significado destrutivo da estratégia de um partido que desejava tomar para si o aparelho de Estado de forma golpista, não pelas armas, mas usando o Tesouro como instrumento de convencimento, trocando as balas assassinas pelo dinheiro sujo. A condenação por corrupção ativa da liderança petista - e por nove vezes - representaria, em qualquer país democrático, uma espécie de dobre de finados. Não há no Ocidente, na História recente, nenhum partido que tenha sido atingido tão duramente como foi o PT. O núcleo do partido foi considerado golpista, líder de "uma grande organização criminosa que se posiciona à sombra do poder", nas palavras do decano. E foi severamente condenado pelos ministros.
 
 
Mas, como se nada tivesse acontecido, como se o PT tivesse sido absolvido de todas as imputações, a presidente Dilma Rousseff, na quarta-feira, deslocou-se de Brasília a São Paulo, no horário do expediente, para, durante quatro horas, se reunir com Luiz Inácio Lula da Silva, simples cidadão e sem nenhum cargo partidário, tratando das eleições municipais. O leitor não leu mal. É isso mesmo: durante o horário de trabalho, com toda a estrutura da Presidência da República, ela veio a São Paulo ouvir piedosamente o oráculo de São Bernardo do Campo. É inacreditável, além de uma cruel ironia, diante das condenações pelo STF do núcleo duro do partido da presidente. Foi uma gigantesca demonstração de desprezo pela decisão da Suprema Corte. E ainda dizem que Dilma é mais "institucional" que Lula...
 
 
Com o tempo vão ficando mais nítidas as razões do ex-presidente para pressionar o STF a fim de que não corresse o julgamento. Afinal, ele sabia de todas as tratativas, conhecia detalhadamente o processo de mais de 50 mil páginas sem ter lido uma sequer. Conhecia porque foi o principal beneficiário de todas aquelas ações. E isso é rotineiramente esquecido. Afinal, o projeto continuísta de poder era para quem permanecer à frente do governo? A "sofisticada organização criminosa", nas palavras de Roberto Gurgel, o procurador-geral da República, foi criada para beneficiar qual presidente? Na reunião realizada em Brasília, em 2002, que levou à "compra" do Partido Liberal por R$ 10 milhões, Lula não estava presente? Estava. E quando disse - especialmente quando saiu da Presidência - que não existiu o mensalão, que tudo era uma farsa? E agora, com as decisões e condenações do STF, quem está mentindo? Lula considera o STF farsante? Quem é o farsante, ele ou os ministros da Suprema Corte?
 
 
Como bem apontou o ministro Joaquim Barbosa, relator do processo, o desprezo pelos valores republicanos chegou a tal ponto que ocorreram reuniões clandestinas no Palácio do Planalto. Isso mesmo, reuniões clandestinas.
 
 
Desde que foi proclamada a República, passando pelas sedes do Executivo nacional no Rio de Janeiro (o Palácio do Itamaraty até 1897 e, depois, o Palácio do Catete até 1960), nunca na História deste país, como gosta de dizer o ex-presidente Lula, foram realizadas na sede do governo reuniões desse jaez, por aqueles que entendiam (e entendem) a política motivados "por práticas criminosas perpetradas à sombra do poder", nas felizes, oportunas e tristemente corretas palavras de Celso de Mello.
 
 
A presidente da República deveria dar alguma declaração sobre as condenações. Não dá para fingir que nada aconteceu. Afinal, são líderes do seu partido. José Dirceu, o "chefe da quadrilha", segundo Roberto Gurgel, quando transferiu a chefia da Casa Civil para ela, em 2005, chamou-a de "companheira de armas". Mas o silêncio ensurdecedor de Dilma é até compreensível. Faz parte da "ética" petista.
 
 
Triste é a omissão da oposição. Teme usar o mensalão na campanha eleitoral. Não consegue associar corrupção ao agravamento das condições de miséria da população mais pobre, como fez o ministro Luiz Fux num de seus votos. É oposição?
 
 
(*) Historiador. É professor da Universidade Federal de São Carlos - SP




 

CORRUPÇÃO: "CONSCIÊNCIA PESADA" INCOMODA POLÍTICOS


Discurso de Mário Couto sobre corrupção entre parlamentares gera controvérsia em Plenário 
 
Da Redação
 
 
 
 
Senador Mário Couto/PA


Em pronunciamento nesta terça-feira (30), o senador Mário Couto (PSDB-PA) parabenizou os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) pelo julgamento do mensalão, mas pediu que a mais alta corte do país também aprecie outros processos que envolvam parlamentares, promovendo "uma limpeza” no Congresso Nacional.
 
Para Mário Couto, é necessário esclarecer a evolução patrimonial de deputados e senadores. Segundo ele, há uma “corrupção generalizada” no país. As senadoras Lídice da Mata (PSB-BA) e Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) protestaram.
 
- O mensalão é uma pequena parte da corrupção generalizada no país. Temos que combatê-la. Enquanto tem senadores aqui que mal possuem um carro para realizar os seus trabalhos, outros moram em apartamentos luxuosos – disse o parlamentar.
 
E continuou dizendo que "muitos políticos, não são poucos, estão aqui sentados nessas cadeiras, milionários, respondendo a 30, a 40, a 50 processos e o Supremo não julga".
 
 
Protesto
 
Após o pronunciamento, a líder do PSB, Lídice da Mata, alegou que Mário Couto havia ferido o decoro parlamentar ao sugerir que todos os senadores e deputados eram ladrões. Na presidência da sessão, o senador Zezé Perrella (PDT-MG) determinou que fossem recolhidas as notas taquigráficas dos pronunciamentos.
 
- Acabamos de ouvir o pronunciamento de um senador chamando todos de ladrão. Não admito, acho que fere o decoro parlamentar – protestou Lídice.
 
Em defesa de Mário Couto, o líder do PSDB, senador Alvaro Dias (PSDB-PR) argumentou que o parlamentar, em seu discurso, não teve a intenção de generalizar.
 
- O senador Mário Couto não optou pela generalização; talvez ele não tenha sido bem entendido - disse Alvaro Dias.
 
Mas a senadora Vanessa Grazziotin concordou com Lídice da Mata e pediu que Mário Couto apresente nomes e números dos processos que mencionou.
 
- Foi um pronunciamento que, por mais que tivesse um alvo, esse alvo não ficou claro. Tem total razão a senadora Lídice da Mata ao protestar contra esse tipo de pronunciamento. Seria importante para a democracia que quando subisse a tribuna o senador citasse os processos para não atingir a totalidade dos senadores e senadoras que têm assento nesta Casa - disse Vanessa Grazziotin.
 
 
Agência Senado
 
 
 

INDIGENISMO SEM HIPOCRISIA: VERDADEIRO RESPEITO AOS ÍNDIOS


 A falácia do "genocídio indígena", ou:
O racismo em pele de ovelha
 


Criança Zoé - Altamira-PA
Criou-se uma comoção nas redes sociais e até em alguns noticiários ditos sérios por conta de uma carta dos índios Guarani-Kaiowá, seguida de uma campanha pedindo assinaturas para algumas daquelas coisas que o povo que vive pedindo assinatura inventa.

O próprio texto pedindo as assinaturas já é um atestado daqueles casos em que as boas intenções não são acompanhadas de uma checagem dos dados disponíveis. Veja abaixo:

Leia, abaixo, carta de socorro da comunidade Guarani-Kaiowá. Os índios da etnia Guarani-Kaiowá estão correndo sério risco de GENOCÍDIO, com total omissão da mídia local e nacional e permissão do governo. Se você tem consciência de que este sangue não pode ser derramado, assine esta petição. Exija conosco cobertura da mídia sobre o caso e ação urgente do governo DILMA e do governador ANDRÉ PUCCINELLI, para que impeçam tais matanças e junto com elas a extinção desse povo.

Após esse texto introdutório, vem a carta dos índios Guarani-Kaiowá, que pode ser lida no mesmo link.

O "genocídio indígena"

Bom, como fiquei interessado nessa questão do "genocídio indígena", fui atrás dos dados no IBGE. Lá no SIDRA achei a seguinte tabela (link):
 

Brasil - População residente, por cor ou raça

Cor ou raça

População residente (Pessoas)

População residente (Percentual)

1991

2000

2010

1991

2000

2010

Total

146815815

169872856

190755799

100,00

100,00

100,00

Branca

75704922

91298042

90621281

51,56

53,74

47,51

Preta

7335130

10554336

14351162

5,00

6,21

7,52

Amarela

630658

761583

2105353

0,43

0,45

1,10

Parda

62316085

65318092

82820452

42,45

38,45

43,42

Indígena

294148

734127

821501

0,20

0,43

0,43

Sem declaração

534872

1206675

36051

0,36

0,71

0,02

Fonte: IBGE - Censo Demográfico
 
Notem pelo dado do IBGE que a população indígena vem crescendo nos últimos três censos demográficos. Em 1991 eram 294 mil, em 2000 os indígenas eram 734 mil, e em 2010, 821 mil. Só para contextualizar, o genocídio mais famoso da história, o dos judeus durante a segunda guerra, matou 6 milhões em menos de uma década.

Vendo os dados, me parece que os indígenas estão sendo "assassinados" como coelhos.

Os maiores inimigos dos índios no Brasil
 
Obviamente as pessoas que considero os maiores inimigos dos indígenas no Brasil, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), já entrou na onda, e divulgou no twitter um de seus relatórios (aqui), onde eles apresentam os números de assassinatos de indígenas no Brasil:

O relatório não para por aí, e mostra o número de suicídios, que está reproduzido abaixo:

 
Notem que eles mostram números absolutos, e que a fonte de dados que o relatório do CIMI utiliza é... outro relatório do CIMI! Como eu não confio no CIMI, e sou um pouquinho mais rigoroso nas minhas pesquisas, fui atrás de dados de fontes um pouco mais, digamos, fidedignas. Então entrei no DATASUS e fui pesquisar os dados de mortalidade do Brasil.

Assassinatos no Brasil

Abaixo seguem os dados de assassinatos no Brasil por cor e raça, tal como disponíveis no DATASUS (link aqui):

Óbitos por Causas Externas - Brasil

Óbitos por Ano do Óbito e Cor/raça

Grande Grupo CID10: X85-Y09 Agressões

Período:2000-2010

Ano do Óbito

Branca

Preta

Amarela

Parda

Indígena

Ignorado

Total

2000

17834

3845

259

19673

102

3647

45360

2001

18689

4057

111

21347

69

3670

47943

2002

18867

4099

103

22853

75

3698

49695

2003

18846

4657

178

23674

78

3610

51043

2004

17142

4153

139

23549

71

3320

48374

2005

15710

3806

81

24648

93

3240

47578

2006

15753

3949

91

25976

125

3251

49145

2007

14308

3921

45

26272

144

3017

47707

2008

14650

3881

74

28468

153

2887

50113

2009

14851

3875

60

29658

135

2855

51434

2010

14047

4071

62

30912

111

3057

52260

Fonte: MS/SVS/DASIS - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM
Notem que os dados oficiais, disponíveis no DATASUS, mostram que o número de óbitos de indígenas por assassinato é maior que aqueles reportados pelo CIMI. E descobri isso sem sair de casa, somente com minha conexão de banda larga. E ainda fiz uma tabela maior, de 2000 a 2010. Como os dados absolutos significam pouco por si sós, fiz uma outra tabela com o percentual dos óbitos por cor ou raça, que segue abaixo:

Óbitos por Causas Externas - Brasil

Percentual de Óbitos p/Residênc por Ano do Óbito e Cor/raça

Grande Grupo CID10: X85-Y09 Agressões

Período:2000-2010

Ano do Óbito

Branca

Preta

Amarela

Parda

Indígena

Ignorado

Total

2000

39.32%

8.48%

0.57%

43.37%

0.22%

8.04%

100.00%

2001

38.98%

8.46%

0.23%

44.53%

0.14%

7.65%

100.00%

2002

37.97%

8.25%

0.21%

45.99%

0.15%

7.44%

100.00%

2003

36.92%

9.12%

0.35%

46.38%

0.15%

7.07%

100.00%

2004

35.44%

8.59%

0.29%

48.68%

0.15%

6.86%

100.00%

2005

33.02%

8.00%

0.17%

51.81%

0.20%

6.81%

100.00%

2006

32.05%

8.04%

0.19%

52.86%

0.25%

6.62%

100.00%

2007

29.99%

8.22%

0.09%

55.07%

0.30%

6.32%

100.00%

2008

29.23%

7.74%

0.15%

56.81%

0.31%

5.76%

100.00%

2009

28.87%

7.53%

0.12%

57.66%

0.26%

5.55%

100.00%

2010

26.88%

7.79%

0.12%

59.15%

0.21%

5.85%

100.00%

Fonte: MS/SVS/DASIS - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM
 

Notem que não há grande oscilação dos números no que se refere ao "genocídio indígena". Ora, não há, em 10 anos, nenhum tendência clara de crescimento de homicídios cometidos contra indígenas. Diga-se de passagem, o único grupo de cor/raça que apresenta uma tendência clara de crescimento de homicídios é o dos pardos. Até onde vi, não há nenhum abaixo assinado contra o "genocídio dos pardos".

 

Os suicídios

Por sorte, ou só por saber onde pesquisar (aprendam jornalistas), encontrei também os dados de suicídios no Brasil, por cor/raça. A tabela com os dados absolutos segue abaixo:
 

Óbitos por Causas Externas - Brasil

Óbitos p/Residênc por Ano do Óbito e Cor/raça

Grande Grupo CID10: X60-X84 Lesões autoprovocadas voluntariamente

Período:2000-2010

Ano do Óbito

Branca

Preta

Amarela

Parda

Indígena

Ignorado

Total

2000

4034

361

43

1726

50

566

6780

2001

4562

404

43

2136

46

547

7738

2002

4475

393

36

2192

64

566

7726

2003

4447

439

41

2359

66

509

7861

2004

4524

407

35

2457

68

526

8017

2005

4661

456

39

2785

80

529

8550

2006

4695

488

35

2872

82

467

8639

2007

4614

438

46

3304

75

391

8868

2008

4848

495

39

3416

100

430

9328

2009

4935

502

34

3417

95

391

9374

2010

4843

514

37

3528

93

433

9448

Fonte: MS/SVS/DASIS - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM
Em comparação com os dados do DATASUS, nota-se que o CIMI novamente subestimou os dados de suicídios. Comparando os suicídios dos indígenas com os de outros grupos, temos a seguinte tabela:

Óbitos por Causas Externas - Brasil
Óbitos p/Residênc por Ano do Óbito e Cor/raça
Grande Grupo CID10: X60-X84 Lesões autoprovocadas voluntariamente
Período:2000-2010
Ano do Óbito
Branca
Preta
Amarela
Parda
Indígena
Ignorado
Total
2000
59.50%
5.32%
0.63%
25.46%
0.74%
8.35%
100.00%
2001
58.96%
5.22%
0.56%
27.60%
0.59%
7.07%
100.00%
2002
57.92%
5.09%
0.47%
28.37%
0.83%
7.33%
100.00%
2003
56.57%
5.58%
0.52%
30.01%
0.84%
6.48%
100.00%
2004
56.43%
5.08%
0.44%
30.65%
0.85%
6.56%
100.00%
2005
54.51%
5.33%
0.46%
32.57%
0.94%
6.19%
100.00%
2006
54.35%
5.65%
0.41%
33.24%
0.95%
5.41%
100.00%
2007
52.03%
4.94%
0.52%
37.26%
0.85%
4.41%
100.00%
2008
51.97%
5.31%
0.42%
36.62%
1.07%
4.61%
100.00%
2009
52.65%
5.36%
0.36%
36.45%
1.01%
4.17%
100.00%
2010
51.26%
5.44%
0.39%
37.34%
0.98%
4.58%
100.00%
Fonte: MS/SVS/DASIS - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM

Novamente, nenhuma tendência clara de aumento entre os indígenas. Já os pardos, coitadinhos...

E isso é muito ou pouco?

Notem que, a exemplo do CIMI, eu só apresentei os dados, sem contextualizá-los. Como quero continuar a ter o privilégio de falar mal deles, vou explicar direitinho como se analisa se os homicídios e suicídios dos indígenas são muitos ou poucos. Compará-los entre si mostra, como nas tabelas acima, o percentual das vítimas de homicídio e de suicídio por grupo, o que é interessante, para, por exemplo mostrar que a proporção de vítimas de homicídio pardas está crescendo, como fiz acima.

Para verificar se um determinado grupo ou etnia está sendo mais ou menos atingido, como grupo, por determinada ação (assassinatos e suicídios, no nosso caso) é necessário ver se os membros desse grupo possuem uma participação total na sociedade maior ou menor que sua participação no rol de vítimas dessas ações. É mais simples que parece. Darei um exemplo que até o pessoal do CIMI conseguirá entender: se uma cidade é composta por 70% mulheres e 30% de homens, é de se esperar que a distribuição dos mortos em um determinado período (sem guerras e outros fatores do tipo) seja de 70% mulheres e 30% de homens. Ou seja, as pessoas morrem na mesma distribuição em que elas se encontram na amostra. Isso é uma distribuição ideal. Porém, se com a mesma população, de 70% de mulheres e 30% de homens, os mortos se distribuírem em 85% mulheres e 15% homens, há aí um indicador que mais mulheres estão morrendo, e daí se investigam as causas. Não é tão complicado. Até antropólogos entendem.

Portanto, para sabermos se os índios são mortos ou se matam mais que outros grupos de cor/raça, precisamos saber como é a distribuição de cor/raça entre a totalidade da população. Por isso coloquei aquela tabela lá em cima, onde estão apresentados a população em indivíduos e em percentual. Compondo essa tabela com os dados do DATASUS, cheguei ao seguinte resultado:


Brasil - Distribuição da população, suicídios e assassinatos por cor/raça - 2000 e 2010

Cor/Raça

2000

2010

População

Suicídios

Assassinatos

População

Suicídios

Assassinatos

Branca

53.74%

59.50%

39.32%

47.51%

51.26%

26.88%

Preta

6.21%

5.32%

8.48%

7.52%

5.44%

7.79%

Amarela

0.45%

0.63%

0.57%

1.10%

0.39%

0.12%

Parda

38.45%

25.46%

43.37%

43.42%

37.34%

59.15%

Indígena

0.43%

0.74%

0.22%

0.43%

0.98%

0.21%

Sem declaração

0.71%

8.35%

8.04%

0.02%

4.58%

5.85%

Total

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Pela análise dos dados, nota-se que os brancos, historicamente, tem uma participação maior no total de suicídios que seu percentual na população. O mesmo acontece com os índios. De fato, o percentual de suicidas indígenas é, em 2000, quase o dobro do percentual de indígenas no país, enquanto em 2010, o percentual de indígenas na população permaneceu inalterado, porém o percentual de suicidas indígenas é mais que o dobro do percentual de cidadãos que se declaram índios. Nisso, as alegações estão certas, os indígenas de fato tomam mais suas próprias vidas que outros grupos de cor/raça.
Já nos assassinatos, o que ocorre é justamente o contrário. Enquanto os pardos (sempre eles, coitados) possuem uma participação maior entre as vítimas de assassinato que sua participação na sociedade, o percentual de vítimas indígenas de assassinato é menos da metade de sua população. Mais seguro que isso, só se você for oriental.


Há motivo para alarde?

Eu apenas arranhei aqui a superfície do problema. O que fiz foi só brincar com estatística descritiva e mostrar que não é tão difícil. A dificuldade está em determinar qual a causa que leva os indígenas a apesentar uma maior incidência de suicídio e uma menor incidência de homicídio, em relação a sua distribuição na sociedade. Os grupos que defendem o índio tutelado, dependente, dizem que é porque eles estão sendo expulsos de suas terras, apesar dessa população de menos de 0,5% do país usufruir de mais de 13% da área. Contudo, essa é uma hipótese que não pode ser ignorada. Eu tenho outras, igualmente válidas sem um estudo mais aprofundado, que nem eu nem os manés que assinam essas porcarias que aparecem na net fizeram.

Minhas hipóteses:

Insatisfação com o governo Lula;

Aumento do preço da cachaça;

"Banda larga" 3G que não funciona;

Desilusão amorosa;

Morte da cabrita; e minha preferida:

Aquecimento global.

Repito, enquanto não forem feitos estudos mais aprofundados que identifiquem de fato as causas, é puro proselitismo afirmar que uma etnia de menos de 0,5% da população se suicida porque não está contente com os 13% do território que lhes foram outorgados pelo Estado.

O que dá pra afirmar é que não há evidências de um genocídio. Ou será o primeiro genocídio auto infligido da história.

Então, porque toda essa falação?

Os índios Guarani-Kaiowá publicaram uma carta na qual contestam uma decisão da Justiça Federal do MS. Nela, em algo parecido com o português (viu como o CIMI não serve pra nada? Nem ensinaram português para eles) falam em morte coletiva. Isso pode dizer que estão dispostos a morrer juntos, lutando, ou como os alarmistas querem que você acredite, que estão dispostos a cometer suicídio coletivo. Foi o que bastou para todos os grupos de desocupados do Oiapoque até o outro lado do arco-íris se apropriasse da causa dos coitadinhos dos Guarani-Kaiowá. Alguns malucos até afirmaram que "Se você come carne, está patrocinando isso" (é verdade! vejam nesse link). Não sei se é falta de proteína animal ou se eles andam fazendo mais coisas com seu verde além de comer. O único pingo de sensatez que vi até agora veio da BBC Brasil, que publicou uma reportagem (aqui) com o título: "Carta sobre 'morte coletiva' de índios gera comoção e incerteza", na qual lê-se:

A carta dos indígenas Guarani-Kaiowá, anunciando o que foi interpretado por muitos como uma ameaça de suicídio em massa, vem gerando comoção, mas também incerteza sobre o real significado do documento assinado por líderes da tribo.

A carta, que teve ampla repercussão nas redes sociais e em portais de notícia do Brasil e do exterior, foi interpretada como um anúncio de suicídio coletivo por parte dos Pyelito Kue, comunidade de 170 indígenas que expôs seu desespero após receber uma ordem de despejo da terra onde vive acampada. Na carta, os indígenas afirmavam que dali não sairiam vivos.

O documento fala em "morte coletiva" e afirma que, se insistir no despejo, o Estado estará decretando a morte dos indígenas, exprimindo profunda desesperança no governo e na Justiça Federal.

Parabéns para a repórter Júlia Dias Carneiro, que, apesar de só utilizar os dados do CIMI, ao menos teve a coerência de admitir que não há certeza sobre a ameaça de suicídio coletivo que tanto se falou nos últimos dias em todo canto da internet e nos periódicos menos sérios. Afinal, basta ver os dois primeiros parágrafos da carta:

Nós (50 homens, 50 mulheres, 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, vimos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de despacho/ordem de nossa expulsão/despejo expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, em 29/09/2012.


Recebemos esta informação de que nós comunidades, logo seremos atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal de Navirai-MS. Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver na margem de um rio e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay.
Gente, entendam o seguinte: os índios estão contestando uma decisão da justiça. Eles podem fazê-lo, desde que haja uma instância superior ao qual eles possam recorrer. Nesse caso, ainda há instâncias superiores. Ou seja, se eles querem contestar essa decisão -- e tem tanto direito quanto qualquer um de fazê-lo -- podem fazer assim que arrumarem um advogado. Simples assim. Agora se matarem? Duvido.


 A ilusão que isso é um fato isolado

O que mais me espanta é a ingenuidade com que esse evento tem sido tratado. Da forma como essa situação é descrita nas campanhas, posts e na imprensa não-tão-séria, parece que essa lenga-lenga dos índios se matarem (quem quer se matar se mata, não fica fazendo discurso) não tem nenhuma conexão com o cenário político nacional. E tem.

Neste ano foi publicada pela Advocacia Geral da União a Portaria 303/2012 (veja mais sobre ela aqui), que, atendendo decisão do STF, determina, entre outras coisas, que Terras Indígenas não podem ser ampliadas, que os Estados devem ser consultados, que as forças armadas podem sim entrar em Terras Indígenas e por aí vai. Em suma, devolveu ao país aquele pedaço (13% é um baita pedaço) do território. Sem tirar um índio de suas casas. Outro fato importante é a tramitação da PEC 215/2000 (veja mais aqui), que determina a demarcação de Terras Indígenas é prerrogativa do Congresso, e não do Executivo. Assim, evitam-se absurdos como Raposa Serra do Sol. Obviamente isso desagradou "os ambientalistas e indigenistas de miolo-mole [que] querem poder decidir quem é desapropriado na sala do cafezinho da FUNAI", como escrevi na ocasião em que tratei do assunto.

Depois de todas as campanhas contra a Portaria AGU 303/2012 e a PEC 215/2000 mostrarem-se infrutíferas, era necessário algo de mais impacto. Como não há nenhuma usina hidrelétrica planejada para a região (vide Belo Monte) e ninguém ateou fogo em ninguém, inventar um suicídio coletivo é, no mínimo, bem conveniente dado o contexto atual. Infelizmente nenhum veículo de comunicação lembrou de falar disso.

E se não fossem índigenas?

Para atestar a falta de validade dessa campanha, boba como tantas outras, basta notar que quando se fala de índios, parece que boa parte da população brasileira, arraigada de um sentimentalismo misturado com racismo, pensa neles como coitados, incapazes e que precisam ser protegidos. Ora, há provas e mais provas que os índios são hoje tratados pela maioria da população como sub-humanos, inimputáveis, no mesmo nível dos loucos e dos infantes: vide o caso de agressão ao funcionário da Eletrobrás ou o sequestro dos trabalhadores da Norte Energia (aqui e aqui). Isso é discriminação.

Minha opinião nesse sentido é clara: índios são tão capazes quanto qualquer outro ser humano. Quem deseja que a população se sinta culpada por qualquer coisa que acontece com eles são exatamente aquela corja que precisa do índio incapaz e tutelado como meio de sobrevivência. O que para muitos de nós, como eu, é um dilema moral (como melhorar a vida dessa população?) para eles é algo mais premente, do tipo: "como manter meu ganha-pão?".

Agora pensem consigo mesmos, especialmente aqueles que se sentiram tocados pela campanha ou que andam reproduzindo essas bobagens por aí:

Se os arrozeiros de Raposa Serra do Sol (a maioria pardos, coitados) tivessem ameaçado se suicidar quando foram expulsos de suas terras para a criação de uma Terra Indígena, você se sentiria tão culpado? Teria apoiado uma campanha pedindo por ação urgente do Estado? Teria assinado por maior cobertura da mídia ao que era uma injustiça?

Se você respondeu "não", você é um racista.

Postado por Davi Schweitzer