segunda-feira, 26 de junho de 2017

SMARTPHONE: VOCÊ É ESCRAVO DO SEU CELULAR?

Smartphone, uma arma de distração em massa

Capacidade de concentração fica prejudicada com tantos aplicativos que cobram atenção
É difícil manter o foco. O celular cria vício. Domesticá-lo não é simples

Móviles
Henri Cartier Bresson, mestre da fotografia centrada na atenção, contempla um quadro de Goya em 1993. MARTINE FRANCK (MAGNUM)

Levamos a vida com uma arma de distração em massa no bolso. Com um dispositivo maravilhoso que põe o mundo ao alcance das nossas mãos, sim, com um aparelho que é a porta do conhecimento, ou pelo menos da informação. Mas, nesse objeto que transformou nossa forma de viver abrigam-se, agachados, uma série de aplicativos que cobram nossa atenção com homologáveis graus de urgência. E se eu perder algo? O medo de perder alguma coisa –em inglês, fomo (fear of missing out)– receio, às vezes angústia, que se multiplica nesses novos tempos.

Bem-vindos à era das mentes dispersas, dos cérebros que têm dificuldades em se concentrar no foco, das microconversas e da microatenção, de pessoas que em alguns momentos têm a sensação de operar como uma barata tonta no ecossistema digital (quando não, também, na vida real).

Inciso: Dispersar, segundo a Real Acadêmia Espanhola: dividir o esforço, a atenção ou a atividade, aplicando-os desordenadamente em múltiplas direções.

É isso.

Estudo aponta que quando estamos 

trabalhando  em frente a um computador 

mudamos de tela,  de foco de atenção, a cada 47 

segundos

Domesticar essa arma de distração em massa que cobra nossa atenção tocando, apitando, vibrando, piscando não é tarefa fácil. De um lado, estamos nós, dotados de um cérebro que é um autêntico devorador de informação, um órgão que busca constantemente novidades, estímulos, com nossa necessidade de nos sentirmos conectados. Do outro, as telas, cheias de aplicativos desenhados com todo tipo de truques para captar nossa atenção.

Foi por volta do ano de 2004 quando a professora Gloria Mark, titular do Departamento de Informática da Universidade da Califórnia Irvine, comparou nossa tendência a checar de modo compulsivo o e-mail e as redes sociais com nosso comportamento ante uma máquina caça-níqueis. Olhamos o celular porque buscamos uma gratificação. E a mera expectativa de poder obtê-la é suficiente para fazer com que voltemos o tempo todo em busca dela – recorremos ao telefone entre 80 e 110 vezes por dia, segundo estudos separados. Esse comportamento se mantém graças ao chamado reforço aleatório (Randomly Reinforced Behaviour).

Essas pílulas de informação que consumimos através do celular geram descargas de dopamina como as que o cérebro de um fumante recebe no momento em que ele acende um cigarro. Por isso voltamos com obstinação em busca de novos caramelos digitais.

“Nos centramos demais na gestão do nosso tempo e pouco na 

gestão da nossa atenção”, diz a especialista Linda Stone

As pesquisas realizadas por Mark, doutora em Psicologia pela Universidade de Columbia, especializada desde 2003 em estudar como as tecnologias da informação afetam a multitarefa, a atenção, o humor e o estresse, são reveladoras. Seu método consiste em estudar minuciosamente o comportamento de pequenos grupos escolhidos de pessoas para inferir nosso modus operandi. Utiliza ferramentas de precisão: sensores, contadores que medem as interações frente à tela, biossensores que medem, por exemplo, dados do ritmo cardíaco.

Com seu estudo Os neuróticos não podem se concentrar: Um estudo in situ sobre a multitarefa online no trabalho (2016), que assina ao lado de especialistas da Microsoft e do prestigiado Media Lab do Massachusetts Institute of Tech­nology, observou que quando trabalhamos em frente ao computador mudamos de tela (ou seja, o foco de atenção) a cada 47 segundos. Foi a medida que obteve do acompanhamento a que submeteu 40 trabalhadores de grandes empresas norte-americanas. Os resultados mostraram que as pessoas muito inclinadas à multitarefa, os denominados heavy multitaskers, se demonstravam mais propensos à distração. Descobriu que quanto mais neurótica e compulsiva é uma pessoa (e quanto pior tenha dormido), menor é sua capacidade de se concentrar.

CÉREBROS CENTRADOS

Mentes errantes, mentes infelizes. Dizia um artigo científico da revista Science, publicado em novembro de 2010 (A wandering mind is an unhappy mind, Uma mente errante é uma mente infeliz), de Matthew A. Killingworth e David T. Gilbert. Conclusão a que se chegou após inserir um app nos celulares de 5.000 pessoas de 83 países diferentes para que respondessem perguntas sobre seus pensamentos, sentimentos e sensações em tempo real. Somos mais felizes se concentramos a atenção.

Há solução para a dispersão. Essa dificuldade de concentrar a atenção qualificada como monkey mind é reversível. O cérebro é um órgão que se adapta constantemente, que pode ser reeducado. A capacidade de se concentrar é algo que se recupera com treinamento. Existem executivos que recorrem a técnicas de desconexão digital e pagam coaches para que se encarreguem de redirecionar seus processos de atenção.

Estratégias de defesa. Colocar o celular no modo silencioso. Desativar as notificações que aparecem na tela para que os alertas não interrompam o tempo todo a tarefa que estamos fazendo. Não dormir junto com o telefone para não deitar e levantar com ele. Desligá-lo um pouco durante o fim de semana e também nas férias. São apenas algumas das medidas propostas pelos neuropsicólogos e estudiosos da atenção consultados para esta reportagem, e que eles mesmos usam para não prejudicar sua capacidade de concentração.

Em outro estudo Concentrados, despertos, mas tão distraídos: uma perspectiva temporal da multitarefa e das comunicações, realizado em 2015 mediante o acompanhamento detalhado de 32 trabalhadores, revelou que consultavam o e-mail 74 vezes por dia (em média) e entravam no Facebook uma média de 21 vezes (com um máximo de 264 visitas diárias).

"A multitarefa sempre existiu", diz Mark em conversa por telefone a partir da Costa Oeste norte-americana. "Mas a capacidade de atenção das pessoas diminuiu. Na minha opinião, é algo que não é positivo. Sabemos que mudar o foco de atenção aumenta o estresse, e que pode ter um impacto em aspectos como a inovação e a produtividade".

O ser-humano está desenhado para mudar sua atenção com facilidade. É algo que garante sua sobrevivência desde os primeiros dias da espécie. Houve um tempo em que os estímulos partiam da natureza, e tendiam a ser lentos. A folha que caía da árvore. O voo da mosca. Na era moderna, tudo começou a acontecer mais depressa. Na digital, tudo se acelerou.

Mas a atenção, que funciona graças à interação entre o lóbulo frontal, o parietal e o cérebro emocional, é algo dificilmente divisível. Quando parece que estamos fazendo duas coisas ao mesmo tempo é porque uma das tarefas pode ser automatizada (como, por exemplo, caminhar). Fazer duas coisas que impliquem um esforço cognitivo (como falar e escrever uma mensagem de texto) ao mesmo tempo não é possível. Na realidade, o que fazemos é mudar rapidamente o foco de uma tarefa para a outra. Assim explica o neuropsicólogo Marcos Ríos Lago, cuja pesquisa se concentra na área da atenção, das funções executivas e da velocidade de processamento.

Linda Stone, una executiva da Apple e da Microsoft, integrante do conselho do MIT Media Lab, desenvolveu no final do século passado um conceito de atenção parcial contínua. Para ela, a multitarefa consiste em fazer várias coisas ao mesmo tempo porque exigem pouca capacidade cognitiva (ordenar papeis e falar no telefone enquanto comemos um sanduíche). Atenção parcial contínua (APC), no entanto, é prestar atenção a várias fontes de informação de maneira superficial.

Stone afirma que essa conexão permanente para não perdermos nada, esse estar permanentemente conectado e em alerta, acaba cobrando a conta quando se transforma em um modo de vida. Gera estresse e compromete a capacidade de tomar decisões, de ser criativo.

Resultado de imagem para IMAGENS ZEN FONE

A proliferação de dispositivos eletrônicos parece ter multiplicado nossa capacidade de lidar com distintos fluxos de informação em paralelo, algo para o qual parecem particularmente dotados os chamados millennials, que mamaram desde o berço do novo paradigma tecnológico. É a hiperatenção. Assim batizou Katherine Hayles em 2007. Com esse termo, a professora de literatura da Universidade de Duke, autora de Hiperatenção e Atenção Profunda: A Divisão Geracional nos Modos Cognitivos, denominava uma nova maneira de absorver o conhecimento que, afirma, obriga uma reavaliação dos métodos educativos.

Hayles se preocupa com o fato de alguns colégios norte-americanos estarem introduzindo iPads nas classes de primeiro ano do ensino fundamental, com crianças que têm apenas seis anos. "Os cérebros são muito maleáveis e isso pode afetar suas neuroestruturas", afirma em conversa por telefone a partir de Los Angeles, na Califórnia. "Acho que o melhor é ser conservador nessas questões até que tenhamos um maior conhecimento das implicações da introdução desses sistemas, e limitar o tempo que as crianças passam na frente das telas".

O novo cenário tecnológico está nos levando ao que o neuropsicólogo Álvaro Bilbao denomina de estilo de atenção monkey mind —o termo procede do budismo—, uma mente que pula de uma coisa para a outra, que vai e volta, que faz com que cada vez mais nos interrompamos uns aos outros pela incapacidade de manter a atenção no que o outro está nos dizendo.

"Tendemos a perder a capacidade de atenção sustentada, de concentração", diz Bilbao, autor de Cuide do Seu Cérebro. E a atenção sustentada, a profunda, é a que dá origem a ideias inovadoras, à criatividade, como afirma Ríos Lagos. Hayles incide nessa linha de argumento: "Todas as conquistas intelectuais do século XX requereram uma atenção profunda".

O debate em torno do impacto das novas ferramentas tecnológicas no nosso cérebro e na produtividade, não obstante, está aberto. Há especialistas, como Enrique Dans, professor de Inovação na IE Business School e autor de Tudo Vai Mudar, que nos lembram que essa hiperatenção é algo que nos torna mais eficientes. Ele nunca tem menos de 10 janelas abertas em seu computador, explica. E se considera bastante produtivo. "É uma capacidade que se desenvolve e que se treina", afirma. Para ele, nessa história há "ganhadores e perdedores", pessoas que se adaptam às interrupções, que se distraem mas voltam de maneira rápida ao que estavam fazendo, e pessoas que não.

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Dans afirma que as notas não baixaram de nível nas engenharias, que o nível de compreensão de leitura melhorou e que os jovens que crescem com os novos dispositivos processam uma quantidade maior de informação e são mais eficientes.

Essa é a mesma longitude onde se posiciona Anna Cox, psicóloga e estudiosa da interação entre humanos e computadores que realiza estudos sobre interrupções e multitarefas. Afirma que as pessoas têm aprendido a distinguir rapidamente qual e-mail precisam responder de modo urgente e qual pode esperar. Essa professora da Universidade College of London Interactive Center (UCLIC) afirma que as distrações nem sempre são ruins.

Às vezes nós mesmos nos interrompemos porque a tarefa se tornou muito complicada e já não estamos sendo produtivos. Então passamos a algo mais fácil, que nos garanta uma recompensa mais rápida (como checar as redes sociais). Ao retornar à tarefa principal, em certas ocasiões, afirma Cox, temos mais claro o que procurávamos ou queríamos fazer. "O importante", afirma em conversa por telefone de Londres, "é que a pessoa tome o controle da tecnologia e que não se converta em escrava dela".

Não cair nas armadilhas que alguns aplicativos nos colocam pelo caminho não é tarefa fácil. As grandes corporações tecnológicas, seus desenvolvedores e programadores, sabem como mexer as peças para dirigir ou cobrar a nossa atenção. "É claro que usam todos os tipos de truques", diz Gloria Mark. "São usados desde que existe a publicidade e agora se faz o mesmo na internet". O neuropsicólogo Ríos Lago aprofunda a questão: "Conseguiram que cada interação exija pouco esforço e seja um reforço". Por isso as curtidas do Facebook, por exemplo.

Proteger e cultivar a atenção dos seres humanos, preservar o direito das pessoas a se concentrar, é um dos desafios que agora estão sobre a mesa. O Manifesto Onlife, encarregado a um painel de especialistas pela Comissão Europeia, cobra que a atenção não seja considerada como uma mercadoria.

"Acho que no futuro aqueles de nós que saibam cultivar ferramentas para se concentrar desfrutarão de uma maior qualidade de vida", afirma em conversa por telefone de Boston a especialista Linda Stone. "Bill Gates, Jeff Bezos e muitos outros líderes da era digital falam que é importante cultivar a capacidade de usar bem a atenção. Nos centramos demais na gestão do nosso tempo e muito pouco na gestão da nossa atenção".

Em um mundo cada vez mais regido pelas lógicas da chamada "economia da atenção", onde a valorização de uma grande empresa do novo ecossistema tecnológico está ligada à sua capacidade de atrair olhos e interações, necessitamos de uma tecnologia que esteja a serviço do ser humano, que nos permita escolher, que faça com que nossa vida seja melhor, que nos faça mais livres, e não uma que sequestre nossa atenção e que se guie pela lógica dos negócios.

Está em nossas mãos cobrar. Atentos.

CANTINAS E MINIUSINAS: A SOLUÇÃO PARA A ECONOMIA DE POPULAÇÕES TRADICIONAIS

Economia do conhecimento na Terra do Meio
Por Marina Yamaoka (texto) e Rogério Assis (fotos)
Reportagem especial conta como ribeirinhos e indígenas da Terra do Meio, mosaico de áreas protegidas entre os rios Xingu e Iriri, no Pará, reencontram a história dos seringueiros e criam uma nova economia que valoriza e protege a floresta e o modo de vida integrado à ela. Assista também o terceiro episódio do minidocumentário “Xingu, histórias dos produtos da floresta”.
No alto do morro da comunidade do Rio Novo, no rio Iriri, encontram-se três casas de madeira, cada uma pintada por um tom de verde diferente. Da casa de Dona Chagas e seu Aguinaldo, a primeira à esquerda, até a casa de Raimunda, sua filha, passamos gradativamente do verde-escuro ao verde-claro. São cores vivas que contrastam com os diversos verdes e marrons das águas dos rios que são longamente atravessados para chegar até ali. Logo atrás das casas, uma construção de alvenaria chama a atenção: é a primeira miniusina da Terra do Meio, uma pequena fábrica que processa produtos florestais não madeireiros, como a castanha-do-pará e o mesocarpo do babaçu.
O Rio Novo encontra-se na Estação Ecológica da Terra do Meio e é parte de uma região homônima formada por áreas protegidas que somam 8 milhões de hectares. A Terra do Meio, no coração do Pará, entre os rios Xingu e Iriri, e cercado por Terras Indígenas, Reservas Extrativistas (Resex) e Florestas Nacionais (Flonas), a região abriga famílias ribeirinhas e os povos indígenas Arara, Kuruaya, Parakanã, Xikrin e Xipaya. Além de ser um território cultural e socialmente rico, possui uma biodiversidade extraordinária e única que se exibe nas diferentes espécies de pássaros, insetos, flores, animais, frutas, árvores, entre tantos outros elementos.

 
Raimunda das Chagas e José Agnaldo Rodrigues, pioneiros da mini usina de produtos florestais não madeireiros do Rio Novo, Terra do Meio, Pará. Foto: Rogério Assis/ ISA
Durante muito tempo, a localização geográfica afastada da Terra do Meio — uma viagem de barco durante o período de seca pode levar semanas de Altamira ao Riozinho do Anfrísio — a protegeu da devastação. No entanto, o mosaico, que representa 54% da superfície da bacia do rio Xingu, e é um importante elemento de proteção do território, tem sentido cada vez mais as pressões do desmatamento, retirada ilegal de madeira e de empreendimentos como a construção de estradas e de obras de infraestrutura.
O Pará foi o Estado que mais desmatou a floresta Amazônica em 2016, sendo responsável por quase 40% dos 8 mil km2 derrubados. “A pressão do desmatamento no entorno da bacia do Xingu tem aumentado e vem de todos os lados”, explica Fabíola Silva, do Instituto Socioambiental (ISA). “E não existe melhor forma de conservar e monitorar a floresta do que articular os diferentes atores do território e empoderá-los. Com uma alternativa de renda sustentável, a partir de atividades que já exerciam tradicionalmente, os povos da floresta podem protegê-la ao mesmo tempo em que permanecem com dignidade e mantém seu modo de vida.”

 
 Paisagens na Reserva Extrativista Rio Iriri, Terra do Meio, Pará. Fotos: Rogério Assis/ ISA

Ao saírem para uma das estradas de seringa ou quando acampam para a retirada do óleo de copaíba, e devem caminhar dias dentro da floresta, os ribeirinhos estão atentos para as mudanças que acontecem na mata e ao seu redor, exercendo um verdadeiro papel de monitoramento.

O beneficiamento e comercialização de produtos como a castanha-do-Pará, a farinha do babaçu, a seringa e óleos de andiroba, babaçu e castanha, parte do conhecimento tradicional dessas populações, também ajuda a conservar um segundo tipo de território, integrado à floresta, que é o do pertencimento, identidade e modo de vida dos ribeirinhos e indígenas. “Eu me sinto feliz de ter aprendido com a minha mãe como trabalhar com a castanha, assim damos continuidade ao conhecimento, passando de geração para geração, e não morre a cultura familiar e da floresta”, conta Raimunda, filha de Dona Chagas e Seu Aguinaldo.

Assista aqui o terceiro episódio do minidocumentário “Xingu, histórias dos produtos da floresta”, com legendas em inglês, que apresenta a cesta de produtos da Terra do Meio:

Assista a versão com legendas em português:

Miniusinas, uma forma de agregar valor ao conhecimento tradicional
Boa parte das 300 famílias que vivem em três Reservas Extrativistas — Xingu, Iriri e Riozinho do Anfrísio — na Terra do Meio são de filhos e netos dos soldados da borracha, em sua maioria nordestinos que foram alistados pelo governo para extrair borracha da Amazônia durante a Segunda Guerra Mundial, conhecidos na região como “arigós”. É o caso de Dona Chagas. Seu avô, do Piauí, passou anos extraindo seringa e sua avó maranhense trabalhava com o coco do babaçu e ensinou a mãe de Chagas como extrair o óleo que, por sua vez, passou o conhecimento para a filha.
O desejo de ter uma miniusina para beneficiar produtos da floresta veio de um intercâmbio realizado em Uruará, onde ela aprendeu a tirar o mesocarpo do babaçu e ensinou como obter o óleo. “Eu vi as máquinas e me empolguei, queria seguir trabalhando com o babaçu e começar um projeto com castanha. A gente conseguiu o apoio, foi uma longa história, mas foi muito bom pra gente porque temos outras alternativas além do peixe para melhorar a renda”, ela conta e dá uma de suas longas risadas secas que enchem o peito e a casa de alegria.
Hoje, quem está à frente do trabalho da miniusina do Rio Novo são os filhos de Chagas e Aguinaldo. “Tenho muito orgulho do trabalho que fazemos aqui e mais orgulho ainda dos meus filhos darem continuidade. É algo que vai ficar pros filhos deles”, explica. Raimunda e Marlon recriam a economia da floresta em que vivem.

Marlon coletando castanha, comunidade extrativista no Rio Novo, Reserva Extrativista Rio Iriri, na Terra do Meio. Foto: Rogério Assis/ ISA

Ele colhe e quebra os ouriços de castanha na mata para, então, lavá-las no rio e deixá-las secando no paiol durante três meses. Quando estão bem secas é hora de cozinhá-las para extrair a castanha e fazer uma primeira seleção do que irá para a secadeira, onde cerca de 120 quilos de castanha permanecem durante 3 dias à temperatura de 65oC. Depois, é feita uma nova seleção para, então, serem embaladas e seguirem diretamente para os mercados. As castanhas quebradas são aproveitadas para a extração do óleo e da farinha, usados na alimentação. Em uma semana é possível produzir uma tonelada de castanha que estará disponível no mercado local de Altamira e em outros locais do Brasil, como o Mercado de Pinheiros, em São Paulo.

“Os produtos beneficiados na miniusina estão prontos para serem comercializados e com qualidade, sem ter que passar por nenhum outro processo na cidade. Dessa forma, os ribeirinhos têm maior autonomia em sua produção”, explica Silva. No Rio Novo, também há maquinário para a produção da farinha do babaçu que é vendida para a Atina, empresa mineira de cosmético. O mingau da farinha já está presente na merenda de algumas escolas públicas da região.

Beneficiamento de castanha na miniusina do Rio Novo. Fotos: Rogério Assis/ ISA

As cinco miniusinas da Terra do Meio trouxeram mais agilidade para o trabalho com os produtos da floresta e agregaram valor ao conhecimento tradicional. “Antes, não tínhamos muito certo para quem vender e o valor era bem menor. Ganhávamos apenas pela coleta da castanha e, hoje, entregando beneficiado, há um valor a mais em cima do produto. O conhecimento é tradicional, mas aprimoramos as técnicas”, conta Raimunda. “Pro futuro da miniusina espero trabalhar com mais produtos e outras tecnologias. Sem destruir a floresta, dando valor para a mata”, conclui.
Mais liberdade com as cantinas
Outra estrutura que impulsiona a articulação dos povos da floresta é a das cantinas, espaços de comercialização de mercadorias e produtos da floresta. As cantinas possuem um capital de giro administrado por um cantineiro escolhido entre e pelos moradores das vizinhanças. Com esse capital os cantineiros compram a produção local dos ribeirinhos, indígenas e agricultores familiares, que podem escolher no momento da entrega dos produtos se querem receber em mercadorias — como café, açúcar, pilhas, entre outros — ou em dinheiro.


Pedro Pereira é cantineiro da Cantina Paulo Afonso, na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio. Foto: Rogério Assis/ ISA
“Com as cantinas temos mais liberdade, o pequeno produtor pode escolher como quer receber e não precisa vender apenas para o regatão [barco que circula na região vendendo mercadorias da cidade e recuperando a produção local]”, explica Pedro Pereira, da cantina Paulo Afonso na Resex Riozinho do Anfrísio.
Os contratos estabelecidos pelas cantinas com empresas que compram os produtos da floresta como o óleo de copaíba e a seringa trazem mais segurança para os extrativistas. “Foi praticamente um sonho, a gente nem sabia para onde ia o produto e o lucro em cima dele antes. Hoje, são os próprios extrativistas administrando, sabemos para onde vão os produtos da floresta e tomamos cuidado para ter uma produção de qualidade para não prejudicar o nosso próprio trabalho. Também contamos com um preço definido para a safra inteira, o que incentiva o trabalho. Foi assim que começamos a retomar o trabalho com a seringa”, relata Pedro Pereira.
No total, são 20 cantinas na Terra do Meio que exercem muito mais do que o papel de compra da produção local e de venda de mercadorias. Articulados em uma verdadeira rede, os cantineiros trocam experiências e conversam por rádio com frequência. “Estamos muito mais conectados com as Resex do Xingu e do Iriri, inclusive com os indígenas”, conta Pedro Pereira.
Fortalecer a integração do território
As famílias que habitam a Terra do Meio estão separadas por horas de viagem de canoa e por labirintos de pedras e corredeiras. Em uma área gigantesca e onde a população está dispersa, as cantinas e miniusinas ajudam a fortalecer a integração do território de diversas formas. Elas recebem a produção a ser beneficiada de todas as famílias da região, fomentando a troca entre populações ribeirinhas e indígenas, e a própria expansão da quantidade de miniusinas incentiva um intercâmbio para que os mais experientes, como Raimunda e Marlon, ensinem como beneficiar os produtos da floresta.
Ronaldo Rocha, da localidade Praia Grande na Reserva Extrativista do Riozinho do Anfrísio, não esconde a alegria da chegada da miniusina. “Trabalhamos com a castanha desde 2014 e fomos devagar por falta de estrutura. Com as máquinas chegando vamos extrair o óleo, a castanha e poder embalar para vender na cidade”, conta. “A ideia é ter babaçu, cumaru, cupuaçu, andiroba, mamona, o que for caroço que tiver óleo a gente manda brasa.”

Ronaldo Rocha na Cantina Praia Grande, na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio. Fotos: Rogério Assis/ ISA

A possibilidade de trabalhar com diversos produtos da floresta é fundamental para garantir a segurança da produção e de geração de renda durante o ano todo. “Hoje dependemos basicamente da castanha e não sabemos se vai dar ou não. A miniusina traz diversidade e, se em um ano bater uma seca como a do ano passado, vamos ter outras opções”, explica Ronaldo. “Além disso, vamos poder deixar de comprar produtos como o óleo que vem da cidade, que é caro e que não estamos acostumados a consumir, para usar o que aqui fazemos e, ainda, vender. É sem explicação para a animação que temos”.
Momento de alegria e de encontros, a Semana do Extrativismo, evento anual que reúne indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares, também é parte da estratégia de fortalecimento do território. Os diferentes atores dos diversos produtos da Terra do Meio se articulam, trocam saberes sobre a sociobiodiversidade e pensam em como produzir e preservar valorizando a floresta.
“Se não tivesse Resex não estaríamos aqui”
Pedro lembra da época em que as Reservas Extrativistas não haviam sido criadas. “Era grileiro por todos os lados, sobrevoavam a área o tempo todo, cortavam picadas e já saíam dizendo que eram donos da terra e vendendo tudo. Estavam acabando com a floresta. Se as Resex não existissem não estaríamos aqui”, diz ele.
Essa também é a recordação de Dona Chagas, que chegou a se mudar para Altamira durante um ano quando a pressão dos grileiros na Terra do Meio se intensificou. “Quando estavam invadindo até tentamos morar na cidade, mas a vida lá é para quem nasceu e se criou na cidade. Nós somos daqui, não podemos nos afastar para viver de um jeito como nunca vivemos, a nossa alma e o nosso coração estão aqui.”

Extração da copaíba na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio. Fotos: Rogério Assis/ ISA

Extração de seringa na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio. Fotos: Rogério Assis/ ISA

As miniusinas e as cantinas facilitam a comercialização dos produtos da floresta, que levam consigo as histórias e a cultura dos povos que nela e dela vivem. É uma forma de proteger o território e fortalecer a identidade, a cultura e o modo de vida dos ribeirinhos e indígenas que conservam o território.
“Se já tínhamos vontade de ficar aqui, no mato, agora é que não saímos. As cantinas ajudam a segurar as pessoas aqui, com contrato, mercadorias, dinheiro, facilidade para quem produz. Antes eu podia pensar ‘vou sair porque não tenho para quem vender’, isso já não é mais a realidade”, conta Pedro Pereira.
Além de coordenar o trabalho da cantina Paulo Afonso, Pedro coleta castanha-do-pará, extrai óleo de copaíba e seringa que são vendidas, respectivamente, para Wickbold, empresa de pães, Firmenich, empresa suíça de fragrâncias, e para Mercur, produtora gaúcha de borrachas. “Nós olhamos para o nosso negócio e vimos que podíamos beneficiar a sociedade se fizéssemos diferente”, explica André Tabanez, gerente de projetos da Firmenich no Brasil. “Ao comprar o óleo de copaíba da Resex do Riozinho do Anfrísio nós multiplicamos os benefícios da nossa atividade e ajudamos a conservar um modo de vida tradicional, além de colaborar para a preservação da floresta.”

Laboratório da Firmenich, onde se usa óleo de copaíba. Cotia, São Paulo. Fotos: Rogério Assis/ ISA

quarta-feira, 21 de junho de 2017

GARIMPOS: DESRESPEITANDO LEIS, MEIO AMBIENTE E PESSOAS

Megagarimpo ilegal provoca ‘febre do ouro’ e divide índios no Pará
Por: FABIANO MAISONNAVE e AVENER PRADO 
(viajaram para a terra indígena munduruku a convite do Ibama)

 
Operação do Ibama contra garimpo no Pará
Do alto, é difícil acreditar que um garimpo tão grande atue na ilegalidade: no meio da floresta densa, abre-se uma chaga de centenas de metros de terra exposta e água empoçada, em plena terra indígena mundurucu.
Na última terça-feira (5), seguindo denúncia das principais lideranças mundurucus, o megagarimpo foi alvo de uma operação do GEF (Grupo Especializado de Fiscalização), a unidade de elite do Ibama. A Folha acompanhou a ação.
Após viagem de 200 km desde a cidade Novo Progresso (PA), os três helicópteros da missão aterrissaram ao lado do igarapé Água Branca, que, sem a proteção da floresta, se transformou num jorro barrento cruzando a terra estéril.
Seis agentes portando armas longas foram escalados para a ação, em região considerada de alto risco. No ano passado, um PM que dava apoio ao Ibama foi morto por um garimpeiro. Em 2012, a PF matou um mundurucu durante a tomada de um garimpo ilegal.
 Dragas garimpam o rio próximo à terra indígena dos Munduruku

O objetivo era destruir o maquinário, autuar infratores e levantar informações sobre os donos do garimpo, mas um incidente com um mundurucu fez com que a missão fosse interrompida após meia hora no solo.
Ao ver uma escavadeira, avaliada em cerca de R$ 500 mil, sendo incendiada, um índio avançou sobre um dos agentes, que usou spray de pimenta para pará-lo. Após desconfiarem que a situação sairia do controle, foi dada a ordem de retirada.
Os agentes estavam em ampla desvantagem numérica. No garimpo, há uma currutela (vila) de pelo menos 50 barracos –o local, que ocupa cerca de 400 hectares, segundo imagens de satélite, e dispõe até de pista de avião e de internet sem fio.
Apesar do pouco tempo no chão, o Ibama conseguiu apreender atas de reunião, informes e recibos de pagamento em ouro dos garimpeiros para a Associação Pusuru, de mundurucus da região.
No documentos obtidos, aparecem carimbos com CNPJ e assinatura dos coordenadores da organização, com sede em Jacareacanga (a 1.190 km a sudoeste de Belém, em linha reta).
Ao Ibama, o garimpeiro José Barroso de Lima, 60, dono de uma escavadeira, explicou que está no local há dois anos, após acordo com lideranças locais mundurucus pelo qual entrega 10% do ouro produzido –2% para a associação e 8% para uma das aldeias próximas.
 
Garimpo na terra indígena Munduruku
DIVISÕES INTERNAS
A corrida do ouro tem criado tensão entre os mundurucus, etnia de 12 mil pessoas conhecida por protestos ousados, como a tomada por uma semana do canteiro de obras da usina Belo Monte, em 2013.
Principal liderança da etnia, o cacique geral, Arnaldo Kabá, protocolou ou apoiou denúncias de atividade garimpeira em terra indígena à Funai, ao Ministério Público e ao Ibama.
No ano passado, ele foi ao local pessoalmente, mas a reunião não teve resultado: “Fiquei triste porque o meu povo está com ideia tão diferente. Cacique pega ouro, mas não sei se está fazendo alguma coisa pela comunidade”, disse à Folha, por telefone.
“A população está sofrendo muito com os garimpeiros brancos. A água está muito suja, muita tristeza, traz mercúrio, malária, diarreia”, completou.
Embora em minoria, o envolvimento dos mundurucus é significativo. Apenas no garimpo Água Branca, 22 aldeias recebem pagamento em ouro, de um total de 123.
O número de aldeias participantes foi dado por Waldelirio Manhuary, uma das principais lideranças da associação Pusuru. Ele afirma que a cobrança do percentual é um direito pelo dano e afirmou que as lideranças contrárias ao garimpo não são representativas.
 
Recibo assinado por integrante da associação indígena Pussuru

Por telefone, Manhuary afirmou que há no local dez escavadeiras e 19 máquinas para garimpo, usadas para lavagem do solo. Dessas, duas escavadeiras e oito máquinas pertencem aos mundurucus.
“Não somos bandidos. Ladrões são os de colarinho branco, os congressistas”, afirmou.
Responsável pela fiscalização do sudoeste do Pará, a gerente executiva do Ibama em Santarém, Maria Luiza de Souza, afirma que, ao poluir os rios, o garimpo traz mortalidade de peixes e doenças para as comunidades indígenas, que em troca recebem um percentual muito pequeno da riqueza produzida.
“Não há aumento na qualidade de vida da aldeia, é um dinheiro que beneficia apenas o garimpeiro. O índio não fica com nada.”
BALSA DESTRUÍDA
Em ação cinematográfica, agentes do GEF (Grupo Especializado de Fiscalização do Ibama) incendiaram uma grande balsa de garimpo dentro de área protegida, no sudoeste do Pará. A destruição foi criticada pela Câmara de Vereadores de Itaituba (1.300 a oeste de Belém), cidade que vive da exploração do ouro.
A balsa foi localizada no último dia 3 de junho durante fiscalização feita por três helicópteros do Ibama em trecho do rio Jamanxim que marca a divisa entre a Terra Indígena Sawré Muybu e Floresta Nacional Itaituba 2, ambas vetadas à mineração.
Por falta de local de pouso, três agentes do GEF, unidade de elite do Ibama, pularam do helicóptero para o rio, de forte correnteza, em trecho próximo à balsa. Outros três desceram em uma ilha de pedra e usaram um pequeno barco sem motor parado ali para atravessar o Jamanxim.
A reportagem da Folha, que acompanhou a operação, não foi autorizada a desembarcar por falta de segurança.
Antes de a balsa ser destruída, foram apreendidos um revólver e um caderno de contabilidade que demonstraria extração de ouro até a véspera da operação. As quatro pessoas na embarcação, todas empregadas do proprietário, foram liberadas. Não havia indígenas.
Chamada de escariante, essa balsa é considerada a mais nociva ao meio ambiente entre as encontradas no garimpo. Por meio de uma coroa rotativa apelidada de abacaxi, sua draga tem capacidade de perfurar o leito do rio em busca de ouro.
A embarcação pertencia a Luis Rodrigues da Silva, 64, o Luis Barbudo, presidente do Movimento em Defesa da Legalização da Garimpagem Regional.
Por telefone, ele afirma ter sofrido prejuízo de R$ 1,5 milhão e negou que estivesse garimpando no local.
“Não me deram oportunidade pra conversar, notificação, nada. A balsa estava parada no local havia 15 dias porque o motor quebrou. Como não consegui arrumar o rebocador nesse prazo, o Ibama passou e tocou fogo.”
Na terça-feira (6), o garimpeiro recebeu o apoio de vereadores da cidade durante sessão na Câmara, que se comprometeu em aprovar uma moção de repúdio ao Ibama.
Segundo a chefe da fiscalização do órgão ambiental para o sudoeste do Pará, Maria Luiza de Souza, toda a região depende economicamente do crime ambiental, principalmente garimpo, exploração madeireira e a pecuária em cima do desmatamento, atividades em que é comum o envolvimento de políticos locais e grandes empresários.
“Da maneira que eu vejo, a exploração da Amazônia é insustentável. É aquela coisa do extrativismo: vamos tirar, acabar tudo e depois a gente vê o que dá.”
Por: FABIANO MAISONNAVE e AVENER PRADO (viajaram para a terra indígena munduruku a convite do Ibama)
Fonte: Folha de São Paulo
 

terça-feira, 20 de junho de 2017

REDE GLOBO: À FRENTE DE TUDO, SEMPRE

Capitalismo de filigranas
LANDES PEREIRA
A Rede Globo (segundo maior partido brasileiro, o primeiro é a JBS) fazia otimísticas apologias em torno das declarações de Henrique Meirelles (ex-presidente do Conselho de Administração da J&F) de que o Brasil tinha saído da recessão e o crescimento econômico era uma realidade inconteste. Eis que os integrantes do Codace (Affonso Celso Pastore, Regis Bonelli, João Victor Issler, Marcelle Chalivet, Marco Bonomo, Paulo Piccheti e Edmar Bacha) declararam que o País continuava em recessão e que não havia sinais do término da retração econômica.

As duas facções (Globo e JBS) entraram em processo de descrédito, tanto que Mirian Leitão, sua equipe e companheiros de bancada passaram a ser hostilizados pela população. A Globo, despudoradamente, mudou de conversa e passou a mostrar que suas notícias anteriores não eram verdadeiras, que faziam parte da propaganda oficial temerista. Tudo não passava de um jogo de cartas marcadas para satisfazer os patrocinadores.

Acontece “jogo de cartas marcadas” quando já se sabe o resultado final antes de começar a disputa, a contenda. Historicamente esses fatos ocorrem nos jogos de baralho, nas lutas de boxe, nas disputas de campeonatos esportivos, nos programas humorísticos, na disputa de violeiros e nas encenações políticas.

Uma semana antes de iniciar o fantástico julgamento do TSE sobre a cassação da chapa Dilma/Temer um analista político de certa rede de televisão divulgou o resultado dizendo que os ministros fulano, sicrano e beltrano votariam pelo sim; e que os ministros fulano, sicrano e beltrano votariam pelo não. O desempate seria um não dado pelo presidente. Não era um furo jornalístico porque a Nação já conhecia esse resultado. O espetáculo começou e por vários dias o noticiário mostrou a verborragia jurídica de suas excelências e os comentários eruditos dos especialistas. Gilmar Mendes justificou dizendo que era a melhor solução para o Brasil.

A derrubada de Fernando Collor e a defenestração de Dilma Rousseff também foram acertadas nos bastidores, antes de se iniciar o processo jurídico. Os acertos e acordos eram conhecidos de todos, mas os espetáculos midiáticos foram brilhantes. Melhores até que as maçantes novelas globalinas. A justificativa era que esse resultado era a melhor solução para o Brasil.

Lá atrás, quando o general Ernesto Geisel determinou as promoções do coronel João Batista Figueiredo rompendo toda a lógica do sistema militar vigente, sabia-se que ele seria o futuro presidente da República. Era um jogo de cartas marcadas imposto pela força e ninguém se opunha ostensivamente. Pelo contrário, muitos arenistas que ainda hoje mandam na política nacional, afirmavam que era a melhor opção para salvar o Brasil do terrorismo comunista.

Muitos brasileiros ainda se lembram do maravilhoso espetáculo popular do movimento das “Diretas Já”, de 1984. O povo e as lideranças emedebistas sabiam que a emenda Dante de Oliveira não seria aprovada, todos sabiam os nomes dos congressistas que votariam a favor e dos que votariam contra. Era um jogo de cartas marcadas que interessava a todos: governantes e opositores. As Indiretas também foi uma jogada de cartas marcadas: trouxeram o ex-presidente da ARENA (José Sarney) para ser o vice de Tancredo, que também era bem visto pelos militares. A justificativa foi a de sempre: salvar a Pátria amada.

O PSDB fez estardalhaço querendo gerar expectativas e ganhar espaço na mídia quanto a sua permanência ou não na “base aliada” de Michel Temer. Pindorama e o mundo sabiam que os tucanos jamais abandonariam quatro ministérios de um governo esvaziado e dependente de apoio parlamentar. Veio o grande dia da decisão: discursos e justificativas de que era preciso salvar a pátria amada, e não largaram o osso, como era o esperado e anunciado pelos cronistas especializados. A justificativa: salvar a Pátria amada do caos econômico.

Eis que de repente FHC, o decano do tucanato nacional, publicou uma carta pedindo a renúncia de Temer e eleições diretas. Dois fatos devem ser observados: continuarão com os cargos e protelarão o caos político até o final de 2018, porque sabem que eleição direta é uma inviabilidade política real.
O próximo espetáculo será a votação pela cassação (ou não) do senador Aécio Neves (PSDB) pelo Senado. As cartas já estão marcadas e os acordos fechados, mas todos negam que tal coisa aconteceu. O PMDB prometeu aos tucanos que não cassariam o Minerinho se o partido permanecesse no governo. E assim será. Temer e seus aliados chegarão ao final de 2018, e o Brasil também, tudo é previsível e está escrito nos “astros”, ou nos bastidores do poder. Nada é impossível.

Agora resta saber o que estão tramando para o depois de Temer. Uma coisa é certa, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Romero Jucá, Eliseu Padilha, Moreira Franco e a Família Sarney continuarão participando do governo. Os lugares de José Serra, Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alkmin estão reservados. O que ainda não dá para vislumbrar é quem comandará o futuro governo.

Em São Paulo os tucanos permanecerão no comando, mas quem herdará o Rio de Janeiro? Em Mato Grosso do Sul quem ficará com a massa falida, uma vez que Zeca, Puccinelli e Azambuja estão encalacrados com a Justiça? Talvez uma dobradinha Pedro Chaves/Carlos Marun (escudeiro de Eduardo Cunha e de Michel Temer)?

Provavelmente haverá mudanças partidárias, mas não acontecerão mudanças políticas. Depois das mudanças tudo ficará como está, mantendo a tradição de Pindorama. As duas reformas que o povo brasileiro realmente quer, jamais virão: a reforma partidária e a reforma do Judiciário.

LANDES PEREIRA. Economista com doutorado; é professor de Economia Política.